A igreja no mundo contemporâneo (I)

Revisitando o Vaticano II O Papa Bento XVI, na sua recente visita ao Presidente italiano Carlo Ciampi, defendeu uma “sã laicidade”, isto é, que “as realidades temporais sejam regidas pelas suas próprias normas, sem excluir referências éticas que encontram o seu último fundamento na Religião.” Ou seja, o Santo Padre, na esteira do Vaticano II, advoga: “A autonomia da esfera temporal não exclui uma íntima harmonia com as exigências superiores e complexas que derivam de uma visão integral do homem e do seu destino eterno.”

Estas foram já as preocupações que passaram no coração e no espírito dos Padres Conciliares. Ao proporem-se abordar o caminho aliciante e actual, mas complexo, das relações da Igreja com o Mundo – sobretudo pela vertiginosa e permanente mudança desse mesmo Mundo -, os Bispos, depois de sucessivas partidas do ponto zero, acabaram por apreciar e votar um longo documento – a Gaudium et Spes -, que, sendo embora uma unidade, tem, de facto, duas partes distintas e complementares.

Concretizaram, deste modo, o desejo de “dar aos problemas do mundo moderno a verdadeira resposta da Igreja”. Numa primeira parte, afirmaram os princípios doutrinais sobre o homem, a sociedade, o mundo, que revestem um carácter de perenidade. Na segunda, fizeram a análise de certos aspectos da sociedade humana, questões e problemas de maior acuidade, que integram orientações permanentes e elementos próprios para uma determinada época.

Misturam-se, nas intenções dos Padres Conciliares, o pensamento expresso por João XXIII (Discurso de 11-09-62): “o mundo tem os seus problemas e a Igreja sempre tomou a peito esses problemas. A doutrina abarca o homem todo, no seu corpo e na sua alma, e pede-nos que sejamos, na terra, peregrinos a caminho da pátria celeste.”; e a experiência dos próprios, trazendo consigo “de todas as partes do mundo, as angústias materiais e espirituais, os sofrimentos e aspirações dos povos” que lhes estavam confiados.

Embora a extensão do documento seja notória e a sua qualidade formal não seja de primeira grandeza, surpreende, em muitos aspectos, a sua radicalidade, que ultrapassa a doutrina social anterior. Note-se, por exemplo, que chega a afirmar a necessidade de a Igreja abandonar a situação de privilégio de que goza em alguns países, em benefício da autenticidade do testemunho.

É com convicção que nos dizem os Bispos: “A nossa solicitude vai para os mais humildes, para os mais pobres, para os mais fracos e, como Cristo, temos piedade das multidões que sofrem fome, miséria e ignorância.” Consideramos, pois, oportuna uma passagem por este documento – o que faremos nos próximos números.

Querubim Silva