Perguntas e Respostas sobre a Liturgia – 4 Por que é que se acende, durante todo o Tempo Pascal, o Círio, se as nossas igrejas estão razoavelmente iluminadas pela energia eléctrica? Por que se acendem as velas junto ao altar ou a lamparina junto ao sacrário?
Apetece responder a estas questões com uma observação: se as nossas salas de banquete estão tão bem iluminadas, porque se colocam velas acesas sobre a mesa festiva? Não é, certamente, por uma mera questão utilitária. No caso concreto da liturgia cristã, a luz tem uma eficácia pedagógica diferente: o simbolismo expressivo de algo ou de alguém que consideramos importante na nossa celebração.
No nosso Ano Litúrgico há uma celebração cujo começo é um verdadeiro jogo simbólico da luz: a Vigília Pascal. O povo congregado na obscuridade, vê como nasce o fogo novo (nesta noite tudo é novo), e dele se acendo o Círio Pascal, símbolo de Cristo; atrás d’Ele caminha a comunidade (“o que Me segue não andará nas trevas”), cantando por três vezes um grito de júbilo: “Luz de Cristo”; e de cada vez se vão acendendo mais velas: os cristãos ficam contagiados pela Luz de Cristo, personalizando o simbolismo, ao mesmo tempo que a igreja se ilumina com a abundância das velas acesas; o cantor do Precónio Pascal entoa a seguir os louvores da feliz noite, iluminada pela Luz de Cristo.
O simbolismo da luz nesta Vigília não necessita de muitas explicações. É evidente a sua intenção, que não se fica apenas numa “informação”, mas que contagia e engloba os crentes, comunicando-lhes com a sua força expressiva o entusiasmo do mistério celebrado: esta noite iluminada “afugenta os crimes, lava as culpas; restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes”.
Se se fizer bem, é magnífica a eficácia de toda a sucessão de sinais: a escuridão da noite (e não nas últimas horas da tarde), o fogo, o Círio belo e novo, a procissão, a progressiva comunicação da luz a cada participante, a iluminação da igreja, o Precónio…
A Igreja, como esposa cheia de alegria, sai ao encontro do seu Esposo nesta noite, como uma comunidade de “virgens prudentes”, com a lâmpada acesa, depois da longa espera da Quaresma.
É interessante que no louvor do Precónio também se inclui a cera, a matéria prima do Círio. Todo ele se converte, assim, no simbolismo de Cristo, na sua humanidade e divindade, que nos comunica com a sua Ressurreição a luz e o calor da sua Nova Vida.
O Círio tem gravados um alfa (A) e um ómega (Ω), a primeira e a última letra do alfabeto grego, exprimindo que Cristo é o princípio e o fim de tudo, o que abarca todo o tempo. O ano também fica gravado neste Círio, para indicar que a Páscoa é sempre nova, sempre eficaz: neste ano, em que Cristo nos quer tornar participantes de toda a sua força salvadora do seu Mistério Pascal. Há ainda um outro detalhe: a Cruz gravada no Círio. O Mistério Pascal supõe um duplo momento: a passagem através da Morte para a Vida.
Este Círio iluminará, desde esta noite, todas as celebrações até à tarde do dia do Pentecostes, quando se completam as sete semanas, o Tempo Pascal, que celebramos como um grande dia de festa: assim sublinhamos o tom “mistérico” dessa Presença do Senhor Glorioso no meio de nós.
Não é o único momento em que a luz aparece ao longo do ano litúrgico como uma categoria simbólica para exprimir e celebrar o Mistério de Cristo: o Natal e a Epifania cantam a Aparição de Cristo Messias sob a imagem da Luz. Também na Apresentação do Senhor no Templo, em 2 de Fevereiro, na popular festa da Candelária, as velas iluminadas são um simbolismo evidente, o último eco do Natal, com uma clara alusão às palavras proféticas do velho Simeão, quando afirmou que este Menino ia ser “luz para iluminar as nações”.
José Manuel Marques Pereira
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
