Eu bem sei que há muitas madres prioresas, cada qual para o seu convento; mas para mim, quando se diz madre prioresa, assim em geral, sem qualquer outra especificação, a madre prioresa é só uma, nem pode ser outra, é a Madre Maria Inês do Colégio de Santa Joana de Aveiro, de apelido de família Champalimaud Duff.
Acontece que às vezes almas grandes, de voos largos, tocadas mesmo pelo fogo do génio, se aninham e se ajeitam o melhor que podem em tristes invólucros, em corpos raquíticos ou monstruosos, em encadernações defeituosas, grotescas, fora daquela harmonia pré-estabelecida, que estava tanto na mente de algumas escolas filosóficas da Idade-Média.
Quando eu penso, por exemplo, em Giacomo Leopardi [1798-1837], essa criança que aos doze anos iludia a sabedoria do tempo, que fazia passar por odes de Anacreonte, de Xenofonte ou de Horácio, ou por metamorfoses de Ovídio aquilo que não era senão os versos que ele compunha, amarrado a uma mesa pela severidade do pai, à altura de uma tal aventura; quando eu penso nesse pobre corcunda, nesse anão torcido e franzino que aguentou, sem se despedaçar às primeiras, numa carne miserável, o espírito super-humano que reatou nos nossos tempos as tradições clássicas da Itália de Dante, de Ariosto ou de Tasso; já me não custa nada a admitir que, mesmo num vaso frágil – ‘in vasis fictilibus’ – como dizia S. Paulo, possa medrar e mexer-se uma planta imortal.
Mas não se dá, nem de longe, o caso de um tal desequilíbrio, de uma desproporção tão chocante, na Madre Maria Inês do Convento de Santa Joana. Dizia-me uma vez o Doutor Francisco José de Sousa Gomes, lente catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra [1860-1911], que, se porventura fechasse os olhos quem se encontrasse com ela a falar na sala, poderia ter a impressão de que não estava a falar com nenhuma freirita, vestida de saragoça ou de sarja, mas que tinha diante de si a própria Rainha Santa Isabel, com as rosas do seu milagre no regaço, com o esplendor da sua auréola e do seu diadema na fronte. Era alta, delgada, majestosa por si mesma, sem fazer o mínimo esforço para o ser ou pelo menos para parecer, tendo sempre nos lábios por singular inspiração, com certeza, as palavras sobre todas próprias que nós mais desejaríamos ouvir no momento. Ficava admiravelmente bem o seu alto espírito no manto imponente da sua mesma apresentação corporal. Alguém até notou que, quando ela vinha de longe pelos corredores, as contas no hábito tilintavam de uma maneira diferente das outras. É que naturalmente os seus passos mais leves, mais aristocráticos, mais de andorinha, transmitiam ao rosário, pendente à cintura, um ritmo especial, mais distinto, mais cadenciado, mais musical; eram harpa as camândulas.
Ela era uma destas criaturas de ascendente e de privilégio, do género de Santa Catarina de Sena que, quando a gente a via e a ouvia uma vez, daí por diante, ainda que estivesse a cinco centos de léguas distante, ainda que se metesse de permeio toda a água do Mar Pacífico ou do Atlântico, só o pensamento de fazer qualquer coisa que não lhe merecesse aplauso, era o suficiente para nos conter, para não se nos desnivelar a vida no sentido perpendicular para baixo. Irradiava, mesmo sem querer, apostolado. Foi, e é ainda, toda ela uma pregação.
Eu já a deixei, quando fui para Angola, atacada do mal terrível de que morreu. As gravatas, os vestidos, os carapuços, que ela me mandava de vez em quando para os pretos e que ainda hoje, à certa, não mudaram de pescoço, de cabeça, de corpo, nem mudarão enquanto se conservar um fio da sua primitiva estrutura, já eram arranjados e empacotados no seu catre de enferma, com três degraus de almofadas atrás das costas, para não ser – como diz Santa Clara no Breviário – ‘etiam in infirmitatibus suis otiosa’ – mesmo na cama inoperosa.
Quando morreu, não admira, o próprio José Estêvão desceu do pedestal no Largo do Município e pegou às borlas do caixãozinho. Disseram-me que estava o tempo de chuva, que não era um dilúvio, mas as chuvas não têm nada com estas coisas, a não ser que elas fossem nesse dia o próprio pranto do céu.
Nas “Lições da Natureza e dos Homens” eu contei como recebi no Congo a notícia da sua morte, quando eu me preparava para tomar parte num banquete de gala. É claro que entrei na sala com a cara mais prazenteira do mundo, ou pelo menos com a cara mais prazenteira do meu guarda-roupa; mas, ao champanhe, era tal o entusiasmo que até se entornou a taça na minha batina.
As comédias da vida!…
(Correio do Vouga, 20-12-1947)
