Centenário da morte de Madre Maria Inês Champalimaud Duff

Morreu no dia 10 de Dezembro de 1909, em Aveiro, onde foi prioreza e directora do Colégio de Santa Joana. Querida do povo, há quem a venere como santa

Maria Josefina Champalimaud Duff nasceu em Lisboa, na freguesia da Lapa, no dia 11 de Março 1836, sendo filha de Roberto Aleixo Duff, um liberal inglês, e de Ana Umbelina Champalimaud de Sousa Lixa e Castro, filha do general António Champalimaud. Era um casal distinto na sociedade da capital, pelo seu nascimento e notáveis dotes de inteligência e de coração. Roberto Duff, apaixonado admirador do nosso grande épico Luís de Camões, publicou em 1880 a tradução inglesa dos “Lusíadas”, com o título “The Lusiad of Camoens”.

Seus pais deram-lhe uma cuidada educação humana, intelectual e religiosa. Crescendo em Lisboa, tornou-se amiga íntima de Teresa de Saldanha. Vulgarmente conhecida com o simples nome de Maria, colaborava na obra educativa da Associação Protectora das Meninas Pobres. Durante muito tempo, ambas percorreram juntas as ruas e os bairros mais pobres da capital, socorrendo os necessitados.

Sentindo o apelo de Deus a uma entrega mais radical, partiu para a Irlanda em 29 de Novembro de 1868, onde fez o Noviciado na Congregação Dominicana de Santa Catarina de Sena. Recebeu o nome de Irmã Maria Inês do Sagrado Coração de Jesus e professou, em Drogheda, Irlanda, no dia 4 de Maio de 1870; regressou a Portugal em Dezembro do mesmo ano.

Exerceu uma influência relevante nas primeiras Irmãs da Congregação, quer como Mestra de Noviças, ministério que assumiu em 1873 (sendo a primeira Mestra de Noviças, de nacionalidade portuguesa), quer como conselheira e grande colaboradora de Teresa de Saldanha, na orientação da Congregação.

Foi nomeada Prioresa da Comunidade em Aveiro e Directora do Colégio de Santa Joana, no dia 6 de Novembro de 1884. Aí permaneceu cerca de vinte e cinco anos, sempre com a responsabilidade dos mesmos cargos, exercendo ao mesmo tempo o múnus de Assistente Geral. Orientou o Colégio de Santa Joana e a Aula Pobre, sendo muito querida de todos pela sua caridade. Como escreveu a Madre Maria de Santo Agostinho Pinto Basto Couceiro da Costa, na “História da Congregação”, 1980, A.G.C., «políticos de relevo e gente de todo o tipo, ao serem recebidos por ela, confessavam que se julgavam em frente da Rainha Santa Isabel de Portugal, tal era a delicadeza do seu porte. Havia nela uma simpatia, uma suavidade e uma doçura que a todos conquistava. Muita gente da cidade procurava o seu conselho. Os pobres viam nela uma mãe desvelada: quantas lágrimas secou, quanta pobreza envergonhada socorreu! A Madre Prioresa, como era conhecida em toda a cidade, era a consolação de todos os aflitos e a alegria de quantos a conheciam.»

Em 1901, sofreu com o clima de hostilidade religiosa. Referiu a mesma autora: «Estão os ânimos de tal modo excitados contra a religião que não podemos deixar de ter cuidado pelo que pode acontecer. Na segunda-feira houve quem desse vivas e morras perto do Convento. Felizmente que o Frei José Lucas já se foi, pois parece que julgaram que era Jesuíta. Em Lisboa também já começaram as desordens, segundo vejo nos jornais. É preciso ter muita prudência, mas quem pode livrar-nos de mentiras e calúnias?!… Confio em Nosso Senhor, e Santa Joana há-de pedir por nós e livrar-nos.»

A Madre Maria Inês foi poupada à grande perseguição da República, pois faleceu no dia 10 de Dezembro de 1909, com setenta e quatro anos, em odor de santidade. O seu funeral foi uma manifestação pública de gratidão, saudade, amizade e reconhecimento da sua santidade. O povo chorava-a com a expressão: «Morreu a mãe dos pobres.» Os jornais da cidade também deram esse testemunho. Ainda hoje muitos devotos acorrem ao seu túmulo, no cemitério central de Aveiro, pedindo protecção e agradecendo benefícios.

A Irmã Maria de São Gabriel Soveral, em carta remetida de Aveiro a uma prima, com a data de 27 de Dezembro, deixou este testemunho (A.G.C. Doc. 3423.): – «A nossa Madre Maria Inês tinha aqui ganho as simpatias de todas as pessoas, pelo seu tacto, bom senso e acolhimento que a todas fazia, sem distinção. Que o seu espírito e o da Santa Princesa continuem a reinar nesta casa. Não sei se leu alguns dos jornais daqui com artigos sobre ela; não lhe posso mandar nenhum porque se esgotaram todos num instante. O sentimento foi geral, todos lhe chamam santa. A peregrinação para a igreja e para o cemitério, onde esteve exposta toda a manhã de domingo, não tinha fim e o povo não a queria deixar enterrar. Viram-se homens de posição tocar-lhe com anéis, outras pessoas com terços, medalhas, flores, etc. Foi uma coisa extraordinária. Como a virtude é reconhecida, mesmo neste mundo! Mas também agora é que se sabe como a sua caridade chegava a tudo e aliviava tantas chagas corporais e espirituais; parece que não há pessoa em Aveiro que não lhe deva algum benefício. Sendo tão boa para com os de fora, pode compreender-se o que era para nós e a falta que nos faz!»

Em Aveiro, onde está sepultada, é reconhecida como a mãe dos pobres. Dentre esses há a destacar os de etnia cigana. Ao seu túmulo continua a acorrer muita gente, implorando graças e venerando-a como santa.

Irmã Rita Maria Nicolau, O.P.