Texto Meu Deus, se tudo pode contribuir para afastar-me de Ti, se a própria oração e as santas celebrações e o recolhimento do convento e todas as decepções da vida não podem salvar-me do perigo de estar longe de Ti, concluo que as coisas santas, mesmo parecendo distintas da minha vida quotidiana, são parte integrante dela. Sim, e neste caso, a minha vida quotidiana” não é somente a parte mais longa. Não, é toda a minha vida. A minha vida inteira é “quotidiana”. Nela, tudo é capaz de me estragar, de me arrebatar o único necessário: Tu, ó meu Deus.
Sim; mas, embora seja verdade que não me reservaste um refúgio sempre pronto a encontrar-te, embora seja verdade que tudo pode contribuir para te perder, a Ti, o Único, então também é necessariamente preciso que eu possa encontrar-te em todas as coisas. Porque é impossível que o homem não chegue a Ti. Portanto, é preciso que te procure por toda a parte em todas as coisas. Cada um dos dias da minha vida quotidiana é o teu dia: dia da tua graça, dia do teu amor.
Tudo, na minha vida, é quotidiano e, contudo, cada um dos meus dias é o teu dia. Assim, meu Deus, compreendo, uma vez mais, o que há muito já sei. E o que a minha inteligência me repetiu muitas vezes, eu o compreendo de uma maneira mais viva no meu coração. Porque para que servem as verdades da inteligência se não alimentam a vida do meu coração?
Karl Rahner (1904-1984)
