Poço de Jacob – 88 Cobrir a cabeça, na Bíblia, significa submeter-se à vontade de Deus, reconhecer que tudo quanto foi criado pertence a Deus e que lhe devemos amor e adoração. Daí o judeu andar sempre com uma “kipá” na cabeça, que, nos bispos, é o solidéu. A mulher judia também cobre a cabeça. E o judeu sempre a cobre, na oração, com o “talit”. Jesus usou-o muitas vezes.
A mulher bíblica não andava de cabelos soltos, pois isto era usual nas prostitutas. Nas tradições orientais, o calor do deserto levou os povos a protegerem a pele com roupas e véus, o homem a circuncidar-se por motivo de higiene e a fazer abluções, lavar pés e mãos, pescoço, braços… e não levar calçado para dentro de casa para não levar lixo.
Da China ao Egipto, Iraque, Israel, estes costumes acabaram por ser introduzidos em rituais de louvor a Deus e tornaram-se costumes com significado religioso. Vemos que a mulher persa – hoje Irão – sempre se cobriu totalmente para proteger sua pele delicada das agruras do sol e para poder sair sem ser vista, vendo tudo. Tarso, terra de S. Paulo, sofreu influência persa muito forte. Daí S. Paulo dizer que a mulher deve trazer a cabeça sempre coberta ou que deve estar calada e pouco ataviada com maquilhagem, penteados e jóias. Claro que tudo isto deve ser lido dentro desta influência persa. A “burka” de que tanto se fala no Afeganistão era persa e a mulher gostava de andar assim. Hoje também gostam, desde que não lhes seja imposta por leis masculinas escravizantes, que foi no que se transformaram muitas das práticas acima descritas, sobretudo com a chegada do islamismo.
Tudo tem a sua origem e razão de ser de carácter cultural, folclórico, tradicional e só mais tarde de carácter simbólico e religioso. Os povos ocidentais, por diferentes influências e climas, culturas e história, viram o vestuário de outros modos. A nudez e o nudismo já eram práticas correntes em gregos e romanos. As vestes eram mais leves. Os banhos públicos e as latrinas comunitárias eram usuais até terem sido proibidos pelo cristianismo. Ainda hoje as podemos visitar em ruínas de cidades romanas. Não se pode dizer que os ocidentais fossem mais permissivos ou promíscuos que os orientais, mas a devassidão acontecia, tanto no palácio do califa como no do imperador. O mundo bárbaro trouxe enorme confusão de princípios. Assim também o despertar do islamismo a partir do séc. VII. E isto tudo para dizer que não há uma norma universal no vestir. A única coisa que se torna universal e, para nós, cristãos, quase preceito é o respeito pelo nosso corpo e pelo corpo dos demais, vivo ou defunto, uma sexualidade orientada pelo respeito mais do que pela paixão, a qual destrói o interior do ser humano.
Conhecer a psicologia humana, que é igual em toda a terra, leva-nos a saber que o nosso corpo não é para a imoralidade, embora tenha apetites de toda a ordem, e que o vestir, o recato e o pudor são leis universais de respeito próprio e alheio. Que nós, cristãos, não podemos ver o corpo e a sexualidade genital como algo de mal, mas temos consciência da limitação de cada homem neste campo e do esforço de auto-educação que cada um tem de fazer para garantir o seu próprio equilíbrio emocional e afectivo. Que na hora de me vestir devo ter o cuidado para não causar escândalo e levar pessoas menos preparadas interiormente a fazerem do meu modo indecente de vestir causa de seu próprio pecado.
As mulheres, hoje, reivindicam a liberdade de andarem quase nuas sem serem perturbadas pelos homens. É desconhecer o mistério da natureza humana e o mistério da fraqueza e capacidade humana de pecar, estimulada também pelo próprio anjo do mal que anda à nossa volta, como diz S. Pedro, como leão que ruge, procurando a quem devorar. Existe uma moda para o cristão? A que nunca passa de moda: A do respeito pelo outro. O recato. O Pudor. Ainda que toda a gente nos rodeie a condenar-nos. Uma mulher para ser bela não precisa de mostrar o corpo. A sua verdadeira beleza, como a do homem, está, como canta o Livro da Sabedoria, no ser virtuoso, conscientes de que, pelo Baptismo, somos terra sagrada onde Deus habita.
P.e Vitor Espadilha
