O Correio do Vouga pediu ao novo padre que contasse um pouco da sua história pessoal e da sua visão do ministério sacerdotal. Aqui fica o testemunho do P.e João Manuel Gonçalves
João Manuel Marques Gonçalves nasceu no dia 29 de Maio de 1983, no lugar de Paradela, paróquia e freguesia de Espinhel (Águeda).
Gosta de jogar futebol e de praticar natação. O seu clube é o Benfica. Nos tempos livres, prefere estar com os amigos e fazer caminhadas. Há dois filmes de que gosta especialmente: “Favores em Cadeia” e “Patch Adams” (a história de um médico que se serve do humor para curar). No capítulo da música prefere Xutos & Pontapés e Mafalda Veiga. Tem página no Hi5.Como frases inspiradoras, aponta: “As coisas belas são difíceis” e “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7).
A história da minha vocação
A minha história começou aos quatro anos de idade – ou pelo menos é o que os meus pais e familiares contam. Tudo começou numa Eucaristia, pois desde cedo os meus pais me levaram à igreja. Como tenho mais irmãos, estando a falar com o meu irmão numa Eucaristia, o meu pai mandou-me calar e eu respondi-lhe: “Quando for grande quero ser padre para poder falar em todas as missas”. Tudo começou assim. Depois os meus pais e familiares iam sempre perguntando o que eu queria ser quando fosse grande, e eu continuei a res-ponder a mesma coisa: “Quero ser padre para poder falar em todas as missas”.
Isto foi crescendo até que, no quinto, ano os meus pais ligaram para uma rádio regional da zona, onde o Padre Nestor fazia um programa, e perguntaram o que era preciso para o filho ir para o seminário. Foi-lhes explicado que tinha que ir a alguns encontros ao Seminário e depois se veria. Assim, a partir do meu 5.º ano comecei a ir a encontros no Seminário. No 6.º ano, foi-me proposto entrar no Pré-Seminário, aonde íamos uma vez por mês, e eu aceitei, pois gostava dos encontros e dos colegas que ia vendo. Penso que desde esse momento a semente da vocação foi crescendo dentro de mim. No final do meu 9.º ano, foi-me proposto dar mais um passo: entrar no Seminário Menor em Aveiro.
Como a experiência de Pré-Seminário estava a ser boa e o exemplo dos colegas que estavam já no Seminário me cativava, eu aceitei o desafio e fui para o Seminário.
A partir daqui foi um assumir um caminho, com altos e baixos, mas sabendo que Aquele que me tinha chamado nunca me abandonava e que me guiava sempre no caminho que estava a fazer.
Passei quatro anos no Seminário de Aveiro onde fui aclarando algumas dúvidas e colocando outras, mas sempre a olhar para o futuro. Depois deste tempo, foi proposto dar mais um passo entrar no Seminário de Leiria, um ano de paragem, sem avaliação, onde nós pensamos mais propriamente na vocação. Este foi um ano importante para o discernimento vocacional, por tudo o que envolveu. Os trabalhos que realizámos, como dar catequese, ir ao lar para estar com os idosos, na Casa de Saúde do Telhal, os retiros, entre muitos outros, ajudaram-nos a ver ou a sentir para o que Deus nos chama. Muitas vezes dizemos que é um ano de esclarecer algumas dúvidas, mas eu acho que trouxe mais do que levava, mas fez-me bem para crescer.
Depois deste ano entrei em Coimbra. Foi um percurso de seis anos, que ao início nos parece longo tão longo, mas que, olhando para trás, notamos que passou rápido. Olhámos muito para o futuro e preparámo-nos para esse futuro que está tão próximo.
Pessoas que me ajudaram
Existem muitas pessoas que nos vão influenciando e ajudando. Em primeiro lugar tenho que lembrar os meus pais e família. Foram-me colocando a questão que me fez surgir para este caminho: O que queres ser quando fores grande? Mas também tenho que lembrá-los pelo apoio que me foram dando e continuam a dar neste percurso que assumi.
Também me ajudaram e ajudam os amigos e conhecidos, pessoas que vão colocando interrogações para o caminho que estamos a fazer, que colocam desafios e propostas, mas que também vão dando apoio.
Outras pessoas que me marcaram foram os padres que foram passando pela minha vida, desde logo o meu primeiro prior, que já partiu para o Pai, o P.e Manuel Ferreira, pelo exemplo de vida e pelo testemunho que me ia dando e o apoio que sempre me deu. Os padres das equipas dos Seminários por onde passei, e aqui lembro o meu primeiro Reitor, o P.e Luís Barbosa, por uma frase que nos dizia e que me marcou muito: “O Seminário antes de formar Padres forma Homens”. Isto é bem verdade, pois eu hoje serei padre, porque fui capaz de crescer como homem.
Muitas outras pessoas me marcam, das comunidades por onde passei e fui trabalhando. É justo lembrar também as muitas outras pessoas que eu não conheço, mas que foram rezando por mim. Desde já agradeço e peço a Deus por elas.
A missão do padre é bela e desafiante
Vejo a missão do padre como uma coisa bela e desafiante, sabendo que é Deus que nos chama – e é isso o mais importante. Temos que saber entregar toda a nossa vida Àquele que nos chama e nos amou em primeiro lugar. Penso que o desafio que me espera é interessante, que tenho muito para dar e receber. O fundamental neste caminho é levar as pessoas até Cristo, com elas fazer caminho de aprofundamento e de relação com Aquele que é a fonte da vida e da felicidade.
Os medos existem sempre, em qualquer caminho, pois todos nós somos humanos, mas eu neste ponto coloco desde já as coisas nas mãos daquele que me chamou e vai chamando, sabendo e confiando que Ele nunca me abandona e está sempre presente no meu caminho e nos trabalhos que vou realizar.
O meu trabalho na Diocese
A obediência que nós assumimos ou com que nos comprometemos não é surda, o que quer dizer que temos que saber falar e dialogar com o nosso Bispo. Penso que, em primeiro lugar, temos que confiar em Deus e no Bispo que nos propõe um trabalho a realizar em favor da Igreja. Claro que todos nós temos expectativas, mas para falar verdadeiramente ainda não pensei muito nisto. Por outro lado, olhando para a nossa Diocese, vejo e sinto que em qualquer campo ou lugar existem todas as vertentes de pastoral. Temos que saber morrer para dar lugar ao Espírito de Deus, para Ele poder trabalhar e desenvolver o melhor para a Igreja que nós somos.
Somos ordenados para servir o povo de Deus e isto passa por muitos meios e modos. Por isso, espero com alguma tranquilidade aquilo que Deus através do meu Bispo tiver pensado para mim.
Como despertar mais vocações?
O que é fundamental é nós estarmos atentos à voz do Espírito, não ter medo de arriscar e dar passos. Deus continua a chamar e a desafiar. Nós, muitas vezes, é que não o queremos ouvir ou então estamos tão cheios que Deus já não cabe na nossa vida. Eu desafio a Diocese cada vez mais a apresentar este caminho aos seus jovens e menos jovens. Quando o Senhor nos chama à vida, chama-nos para sermos felizes, e a felicidade não passa só pelo matrimónio, mas também por muitos outros campos e este de ser padre é um muito específico. O que eu posso dizer aos jovens é que não tenham medo. Aquele que nos chama nunca nos deixa sós, está sempre ao nosso lado e Ele é capaz de nos realizar plenamente.
Por vezes os jovens têm medo de dar uma resposta para toda a vida, por causa da sociedade que nos vai apresentando outros ideais de vida, mas nós temos que saber remar contra a corrente. Temos que mostrar a nossa alegria de viver nas pequenas coisas que nos vão acontecendo.
