A oração que está no coração do povo

O leitor pergunta – De onde vem a oração da “Avé-Maria”? A “Avé-Maria”, certamente a oração mais popular, resulta da combinação de três partes: duas de origem bíblica (de louvor) e uma provinda da Idade Média ou um pouco posterior (de petição).

A primeira tem origem na saudação do Anjo Gabriel a Maria, na Galileia: “Avé, Maria, cheia da graça, o Senhor é convosco” (na Bíblia da Difusora Bíblica: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo”, Lucas 1,28).

A segunda parte é a resposta de Isabel à saudação prévia de Maria. Os evangelhos não transcrevem o que Maria disse em primeiro lugar, quando foi visitar Isabel a “uma cidade da Judeia”, que actualmente é identificada com Ain-Karim, a 6 km de Jerusalém. Mas referem que Isabel deu como resposta: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). Estas duas saudações, ainda sem o “Jesus” final, aparecem unidas desde o séc. VI no Oriente cristão (Grécia, Turquia, Ásia Menor…). No século seguinte, começam a aparecer nos livros romanos. Era a antífona rezada no ofertório do IV domingo do Advento. Na Idade Média, os frades que não sabiam ler recitavam estes versículos bíblicos (sem a parte iniciada por “Santa Maria”) em substituição da obrigação de rezar os Salmos (como os Salmos são 150, é aqui que tem origem o que viria a ser o Rosário – mas isso pode ficar para outra ocasião).

Quanto à invocação “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte”, não há unanimidade no que diz respeito à sua origem. Uma das obras consultadas refere que surgiu como resposta do povo à heresia de Nestório (patriarca de Constantinopla de 428 a 430), que dizia que Maria era apenas mãe de Cristo (Cristotokos, em grego). O povo, contra tal heresia, fez uma grande procissão e cantou essa invocação. O Concílio de Éfeso, em 431, proclamaria que Maria é Mãe de Deus (Theotokos, em grego). Outras obras referem que a invocação “Santa Maria” passou a escrito nos breviários dos Mercedários (frades com origem em Bar-celona, que se dedicavam ao resgate de cristãos cativos dos mouros), dos Camaldulenses (monges italianos inspirados nos beneditinos) e dos Franciscanos, sensivelmente na mesma época: séc. XV.

A oração ficou completa com a introdução do “Jesus”, a seguir às frases de Lucas, e o “Ámen” final. Uma das obras consultadas diz que foram feitas em 1483, sem referir o local ou autor(es). O que se pode concluir é que, no final do séc. XV, esta oração de origem bíblica e popular já era conhecida e rezada tal e qual como hoje a rezamos.

Jorge Pires Ferreira