Alfredo Bruto da Costa defendeu um combate à pobreza em três frentes: colmatando a privação; construindo fontes de recursos; e provocando a mudança social
“Há um ditado que é muitas vezes mal citado, aquele que diz: «Se vires alguém com fome, não lhe dês um peixe, mas ensina-o a pescar». O que Confúcio diz é algo diferente: «Se só deres o peixe, ele come hoje. Se deres o peixe mais a cana, ele com hoje e o resto da vida»”. Com este esclarecimento, Alfredo Bruto da Costa, nas Conferências da Primavera da Gafanha da Nazaré, pretendeu centrar as atenções do público que o escutava atentamente mo que deve ser a luta contra a pobreza. “O projecto mais eficaz é quando uma pessoa diz: «Muito obrigado, mas já não preciso mais de vocês»”, afirmou o presidente da Comissão Nacional «Justiça e Paz», para a seguir exemplificar com a “sala alagada” a situação em que vivem os pobres. “Se eu tiver uma torneira sempre aberta, posso limpar a casa, que daí a pouco volta a estar alagada. É assim que funciona alguma luta conta a pobreza: ataca as consequências, mas não as causas”. Ou seja, é preciso fechar a torneira da privação. Claro que, como notou, as coisas não devem ser postas em termos alternativos, mas sim cumulativos. “Resolver o problema da privação”, isto é, dar comida, vestuário ou outros bens aos pobres, “é condição necessária, mas não suficiente para resolver o problema”.
A questão da privação (“dar o peixe”) é resolvida por diversas instituições e por muitos cidadãos. Portugal até tem uma longa história, a começar nas centenárias Misericórdias, de atenção ao pobre. Mas resolver a falta de recursos (“dar a cana”) exige mudanças sociais, ao contrário do pensar comum que diz que “o pobre é preguiçoso”, “teve má sorte” e que “a pobreza é inevitável”. Bruto da Costa deixou sugestões concretas para a mudança mais profunda, que sintetizamos: 1) Mudar a mentalidade que faz do pobre o principal responsável pela sua pobreza; 2) Relacionar solidariedade e responsabilidade na noção de justiça social (“a luta contra a pobreza é questão de justiça e não de sentimentalismo”); 3) ler a pobreza como violação dos Direitos Humanos, atentado à dignidade do ser humano; 4) defender o direito de propriedade para todos (“é uma grave omissão dos cristãos. Defendem o direito de propriedade dos que a têm; devem defender, também, o dos que não a têm”); 5) Opção por políticas que insiram nos seus programas um efectivo combate à pobreza.
J.P.F.
Solidariedade, pobreza e direitos humanos
“Pouca gente fala de pobreza na perspectiva dos direitos humanos. Aborda-se mais na perspectiva do desenvolvimento e das políticas. Mas a pobreza é uma violação dos direitos humanos”, afirma Bruto da Costa. O economista e cientista social nota que “pode haver crescimento económico com desigualdade social e agravamento da pobreza, se a riqueza for mal distribuída”, por isso, acrescenta: “Temos de olhar para a pobreza como algo que vai contra a dignidade humana. A pobreza existe como consequência e tem de ser combatida com mudanças sociais, mesmo que haja muitas resistências”.
Alfredo Bruto da Costa sublinhou uma solidariedade na “linha de João Paulo II”, que não é “um sentimentalismo”. “A solidariedade e a responsabilidade social estão relacionadas na noção de justiça social. A solidariedade não é um sentimentalismo. É o compromisso muito sério com os outros. A responsabilidade só pode ser séria se virmos na pobreza um problema, uma falta de justiça social”.
