A Semana

Que os portugueses têm passado um mau bocado por força das dificuldades económicas criadas pela conjuntura internacional e por más opções no tempo do Governo PS, é verdade indiscutível. Ninguém de bom senso o nega, mas todos reclamam soluções imediatas para se restabelecer o equilíbrio social, marcado pelo crescente desemprego no País. Entretanto, uns acusam o sector empresarial de pouco fazer para a retoma económica, com fracas produtividades e competitividades, e outros insistem na ideia de que as culpas cabem todas aos trabalhadores, esquecendo-se as responsabilidades que pertencem ao Estado.

Talvez poucos portugueses saibam que, afinal, o Estado gasta metade dos recursos nacionais, nos mais diversos serviços que presta aos cidadãos, mas nem todos reclamam atendimentos de mais qualidade. Sabe-se, também, que muitas repartições não investem na produtividade, não têm preocupações de competitividade e criam obstáculos às empresas, em vez de as apoiar, incitar e estimular.

Afinal, o Estado, um patrão sem rosto, exige aos outros aquilo que prega mas não faz, dá maus exemplos de eficácia e não dá sinais de querer melhorar as coisas. A reforma da Administração Pública, que o PSD ainda não conseguiu levar por diante e de que tanto se fala, não anda nem desanda, e quem paga as favas somos todos nós.

Quando muitos, provavelmente, esperavam que a Igreja Católica dos Estados Unidos da América (EUA) se calasse perante o escândalo dos abusos sexuais de menores perpetrados por membros do seu clero ou entrasse pela via das desculpas esfarrapadas ou das acusações sem nexo, eis que foi tornado público um estudo feito por um comité de leigos, a pedido da hierarquia norte-americana, em que os números, tristes números, foram revelados com toda a sua crueza. Certamente com verdade, mas também com humildade.

Os resultados do estudo, referentes aos últimos 50 anos, são tristemente conhecidos e foram apresentados como uma “vergonha para a Igreja”. Onze mil queixas contra 4392 padres, 6700 das quais foram consideradas com fundamento, tendo vitimado crianças e adoles-centes entre os 11 e os 14 anos, constituem, quiçá, o maior pecado do século.

A Igreja americana não entrou, a partir desses resultados, em explicações baratas, antes reconheceu o crime dos seus clérigos, ao pagar mais de 500 milhões de euros em custos jurídicos e em apoio às vítimas.

Ao realçarmos, neste espaço, a decisão da hierarquia católica dos EUA, em pedir o estudo e em o divulgar, move-nos a convicção de que tudo será diferente a partir de agora, em questões tão terríveis como esta. Tanto na Igreja norte-americana como nas Igrejas do resto do mundo.