O Diagnóstico Social do Concelho de Aveiro (ver página 5) veio mostrar que, apesar do progresso tão apregoado e até visível em muitos sectores, há entre nós carências gritantes em áreas fundamentais. É certo que não faltam obras emblemáticas e úteis, é verdade que as infra-estruturas sociais representam uma mais-valia para o bem-estar das populações, mas também se sabe agora que, afinal, nem tudo estará bem.
Já aqui dissemos, noutro contexto, que os portugueses não têm tido vocação para a análise profunda das situações e para planificação de respostas a prioridades. As coisas vão-se fazendo ao sabor da maré, muitas vezes ao gosto dos autarcas e às exigências dos resultados eleitorais.
O Diagnóstico Social, encomendado pela autarquia aveirense, veio atrasado, mas já está concluído e até aprovado. É um dado positivo, sem dúvida, mas urge levá-lo à prática. Ele tem de influenciar, de maneira inequívoca, as decisões futuras de todas as autarquias do concelho, que não apenas da Câmara Municipal.
As carências que o documento denuncia não podem ficar esquecidas, sob pena de se comprometer o futuro das próximas gerações. Tem de ser estudado, esmiuçado, reflectido e divulgado, numa perspectiva de busca de respostas aos problemas das gentes aveirenses.
No entanto, a tarefa não pode circunscrever-se apenas aos autarcas e ao Governo. As comunidades locais, as instituições de solidariedade social, culturais e outras não podem demitir-se das suas responsabilidades de contribuir para o bem comum e para a qualidade de vida das pessoas. O hábito de tudo se exigir aos poderes constituídos tem os dias contados. Todos devem ser co-responsáveis pelo que (não) se faz na sociedade.
Desde sempre as oposições nos habituaram à ideia de exigirem, por tudo e por nada, a demissão do Governo ou a remodelação governamental. Por mais competentes que sejam os ministros, se um seu colaborador em qualquer departamento comete um erro, aí estão na praça pública os protestos a pedirem as suas cabeças. Mas o que acontece é que, decerto muitas vezes, isso mais contribui para que o primeiro-ministro deixe ficar tudo como está.
Quando, porém, as críticas surgem dentro do partido que suporta o Governo, então tudo começa a ser um pouco diferente, sobretudo se os alertas vierem de militantes de peso. Foi o que se verificou na passada semana.
Duarte Lima disse no “Expresso” que “há ministros competentes e com poder – entendido aqui como poder interno. Há ministros competentes e sem poder. Há ministros com poder, mas incompetentes. E há ministros incompetentes e sem poder, o que é pior”.
Contudo, na mesma semana, para reforçar o que disse aquele militante social-democrata, Santana Lopes, o vice-presidente do PSD com mais influência junto de Durão Barroso, denunciou a inoperância e as falhas de alguns ministros, nomeadamente de Amílcar Theias (Ambiente), de Manuela Ferreira Leite (Finanças) e de Luís Filipe Pereira (Saúde), entre outros.
As críticas ao Governo podem vir de todos os partidos da oposição e mesmo do interior do PSD, que Durão Barroso ficará indiferente, não cedendo a pressões. Mas será que vai continuar nessa posição, quando Santana Lopes fala assim em público?
