A norma seguida por muitos órgãos de comunicação social de que só são notícias histórias como a do homem que mordeu o cão continua a marcar o quotidiano de alguns jornalistas, decerto em muitos casos a isso obrigados. E com a vida da Igreja Católica, esse princípio é seguido rigorosamente no dia-a-dia. Atente-se no que aconteceu a propósito de um pseudodocumento que iria proibir palmas e danças e até a participação de mulheres como acólitas nas Eucaristias (Ver página 4).
Que saibamos, todos os grande jornais, rádios ou televisões dedicaram amplos espaços ao assunto, mesmo sem consultarem, a maior parte das vezes, os responsáveis eclesiais mais próximos. Era tema, pelos vistos, que atrairia mais leitores, mais ouvintes e mais telespectadores. Só porque era polémico.
No entanto, as notícias das viagens do Papa, os seus documentos e intervenções, bem como dos bispos, as grandes jornadas e seminários promovidos pela Igreja Católica para debate de questões pertinentes para a vida da pessoas e comunidades, quase sempre merecem apenas curtas notas de rodapé, tal como o muito bom que se faz a nível social. Mas se um bispo, um padre ou um qualquer cristão leigo têm um simples deslize, logo surgem reportagem com grandes parangonas. O negativo, afinal, é que importa. A informação objectiva e pela positiva, a formação para os valores essenciais a uma vida digna, a abertura à cultura e a promoção da solidariedade estão mesmo pelas ruas da amargura em muita comunicação social.
Às vezes temos a sensação de que há temas que gozam de alguns privilégios entre nós. A comunicação social dá-lhes relevo e a atenção das pessoas logo se volta para eles com gestos de solidariedade e campanhas de sensibilização para responder aos problemas e desafios que são suscitados. Foi assim com a sida, com a pneumonia atípica e com a droga, por exemplo. No entanto, outras doenças, com capacidade para destruir seres humanos e suas famílias, permanecem ignoradas pela nossa quase generalizada indiferença.
Neste número do Correio do Vouga, levantamos o véu de uma dessas doenças que afectam centenas de milhares de portugueses, directa ou indirectamente. Referimo-nos ao alcoolismo que não tem cura, mas que pode ser bloqueado para que o doente consiga levar uma vida digna e perfeitamente normal.
Visitámos o Centro de Alcoólicos Recuperados do Distrito de Aveiro, dirigido com paixão por um doente que consegue acorrentar o vício que o dominou durante muito tempo. Hoje ajuda quem estiver interessado em imitá-lo.
Neste espaço de reflexão, queremos denunciar, contudo, as dificuldades que o Centro tem enfrentado. As ajudas estatais são pouquíssimas e a indiferença das populações é enorme. E Portugal continua com centenas de milhares de doentes e suas famílias a sofrerem os dramas que o álcool alimenta, quantas vezes à vista de tantos de nós.
