
D. António Ilídio nunca obteve confirmação papal, mas residiu em Aveiro entre 1840 e 1844.
Como noticiado no Correio do Vouga (19/06/2015) e reproduzindo informação publicada pelo Jornal de Notícias (12/06/2015), a investigadora Eugénia Cunha, docente do departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, identificou, juntamente com a sepultura de um bispo nomeado de Aveiro, D. Frei António de Santo Ilídio da Fonseca e Silva, 11 homens, seis mulheres, sete não-adultos, incluindo um bebé.
De igual forma nos informou o Correio do Vouga o contexto religioso e político em que Frei António de Santo Ilídio foi nomeado bispo de Aveiro, a partir da obra de monsenhor João Gaspar “Diocese de Aveiro – subsídios para a sua história”.
De facto, as nomeações episcopais eram realizadas no âmbito do beneplácito régio, isto é, desde o reinado de D. Pedro I que as determinações da Igreja Católica relativas a clérigos e fiéis para serem válidas em território nacional necessitavam de aprovação do monarca. A partir de D. João II foram abolidas estas prerrogativas, embora a coroa mantivesse certo controlo sobre actos e documentos, chegando mesmo a restabelecer o referido beneplácito, cujo espírito só se extinguiria em definitivo com a instauração da República. Até então, existia, dependente do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça, uma Secretaria de Estado dos Negócios de Justiça, que tinha competências sobre as questões de justiça civil e criminal, os negócios eclesiásticos, as nomeações dos lugares de magistratura, ofícios ou empregos, a inspecção das prisões e a segurança pública. A profundidade e extensão da acção política da Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça foi particularmente significativa com a realização, a partir de 1834, da designada “reforma geral eclesiástica”, protagonizada pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar. O novo regime de 1910 emitiu a Lei da Separação do Estado da Igreja, assumindo este sector governamental, a partir de 8 de Outubro, a denominação de Ministério da Justiça.
Mas serviu esta explicação para que possamos, na generalidade, entender que, no caso concreto, foi o próprio rei D. Pedro IV a nomear o bispo para Aveiro, não obtendo do papa a sua aprovação, fruto das turbulências sociais, políticas e diplomáticas da época em Portugal. Não obstante, o bispo nomeado tomou posse da então catedral erecta na Igreja do Recolhimento de São Bernardino e expediu vários documentos. Residindo em Aveiro desde 1840 a 1844, apresentou a sua renúncia de vigário capitular (para que fora nomeado em 1843) ao arcebispo de Braga, alegando falta de saúde. Sabia-se do seu falecimento, ocorrido a 28 de janeiro de 1849, no Porto. Tomou-se agora conhecimento da sua sepultura.
Solicitando mais informações à investigadora do projecto na cripta do Torre dos Clérigos, onde se localizaram as sepulturas – com o principal objectivo de localizar os restos mortais do autor do edifício, Nicolau Nasoni –, a professora Eugénia Cunha revelou que o corpo do bispo eleito fora amortalhado com as vestes sacerdotais e tricórnio, sapatos pretos com berloques, identificados pelo Capelão da Irmandade dos Clérigos, Padre Américo Aguiar. Junto do corpo depositou-se um crucifixo. Estava o cadáver orientado com a cabeça para este e pés para oeste. O caixão chumbado media 1,88 metros de comprimento. Segundo documentação da instituição, D. Frei António de Santo Ilídio foi sepultado na cripta em 1849 e, de acordo com análises da equipa de investigação, teria mais de 60 anos quando faleceu e mediria ente 1,60 e 1,70 metros de altura. O corpo apresenta uma fractura consolidada na tíbia e fíbula direitas, com calo ósseo bem visível e osteoartrose nos joelhos e coluna. A dentição, por fim, apresentava relativo bom estado.
Nuno Gonçalo da Paula
