A sociedade dificulta o luto

Há quinze anos, José Eduardo Rebelo perdeu a mulher (que estava grávida) e as duas filhas num acidente rodoviário. O acontecimento doloroso transformou-se em oportunidade para reflectir sobre o luto e ajudar outras pessoas que o fazem. Professor de Biologia na Universidade de Aveiro, José Eduardo Rebelo mergulhou no estudo da Psicologia para melhor compreender o assunto, escreveu um livro (“Desatar o Nó do Luto”, Editorial Notícias) e fundou uma associação para ajudar pessoas e famílias que ficam desorientadas quando perdem entes queridos.

Na próxima sexta-feira, dia 31, às 21h15, a pedido da paróquia da Glória, dá uma conferência, em Aveiro, no Salão das Florinhas do Vouga.

CORREIO DO VOUGA – As pessoas perderam o sentido do luto?

JOSÉ EDUARDO REBELO – Não. Não perderam o sentido do luto, porque todas o fazem. O que acontece é que é cada vez mais difícil fazê-lo socialmente, publicamente. A sociedade, preocupada com questões de eficácia, e a pressão social, que exige que tudo seja rápido e imediato, é que dificultam o luto.

Que consequências advêm dessa pressão social para quem está de luto? É só uma questão de tempo?

As pessoas que perderam alguém precisam de tempo para elaborar o luto e isso exige um apoio social. A pessoa precisa de manifestar os estados emocionais alterados: raiva, tristeza e outras manifestações depressivas. E isto não é socialmente aceite.

A sociedade dá oito dias para uma pessoa se recompor emocionalmente de tudo. Depois segue a vida como se nada tivesse acontecido. No ambiente citadino talvez isto ainda seja mais notório.

Quer dizer que em ambientes mais tradicionais é mais fácil fazer o luto?

Penso que hoje já não podemos separar ambientes rurais e urbanos, tradicionais e progressistas. A globalização tornou tudo mais fluido. Os mesmos valores entram no dia-a-dia em casa de todos pelos meios de comunicação. O luto depende de vários factores e da disponibilidade das pessoas em aceitarem a pessoa em luto.

A que factores se refere?

São basicamente cinco os factores que influenciam o luto: 1. O grau de vinculação ou apego à pessoa perdida; 2. O grau de gestão emocional que a pessoa tem; a inteligência emocional e a capacidade de gerir emoções; 3. O tipo de perda que essa pessoa sofreu. Se for um filho, a dor é maior, porque é a dor pela perda do futuro. O tipo de morte – suicídio, morte natural, morte repentina, morte esperada – também tem influência; 4. O apoio na esfera próxima; 5. O apoio social.

O factor religioso não conta na elaboração do luto?

Conta em termos de perspectiva face à morte. As pessoas religiosas habitualmente experimentam menos medo relativamente à morte. Mas quanto ao luto, os factores que apontei é que são decisivos.

Mas na perspectiva cristã, a morte é uma separação provisória, não é a última palavra…

Há um processo do luto, que irei explicar no encontro da próxima de sexta-feira e há uma questão que é colocada. A religião procura responder a essa questão central, que é: onde está a pessoa perdida? Ora, o luto é uma questão anterior, é a questão da despedida de uma pessoa que fazia falta. É a questão da relação com uma pessoa que nos fazia sentir bem, que nos dava prazer. Por outro lado, a perspectiva religiosa nem sempre é a melhor solução. Dizer a uma criança que o pai e a mãe foram para o céu pode levá-la a pensar que “foram e voltam mais logo”. Como não voltam, a criança pode culpar os pais por não voltarem ou quem lhe disse isso…

Como é o processo de luto? Tem etapas?

O processo passa pela fase do choque (1.ª), pela da negação emocional (2.ª), pelo reconhecimento da perda (3.ª) e pela de aceitação (4.ª).

Este processo varia de pessoa para pessoa?

Sim. As fases são as mesmas, mas prolongam-se no tempo de modo diferente e cada pessoa é um caso. Se se perde um pai, de alguma forma é menos doloroso, porque o pai faz parte do passado. É expectável que sobrevivamos a ele. Embora haja pessoas que, com a perda de um mais velho, entrem num pranto muito desigual. Já perder um filho é algo muito mais complexo. O luto pode durar para o resto da vida, ainda que a pessoa esteja tranquila e calma.

Criou a associação Apelo. Quais são os objectivos e onde está presente?

A Apelo tem quatro objectivos: apoio directo às pessoas e famílias em luto; divulgar o tema “Os afectos: construção, manutenção e perda”; pesquisar e ensinar sobre o tema do luto; provocar a cooperação com outras instituições. Estamos presentes em Aveiro e em mais dezena e meia de locais, entre os quais Braga, Viseu, Coimbra, Lisboa, Algarve, Açores e Madeira.

[Na Internet: www.apelo.pt]