D. Ximenes Belo, na cerimónia de doutoramento Honoris Causa D. Ximenes Belo, Prémio Nobel da Paz, foi distinguido na passada quarta-feira, 7 de Junho, pela Universidade Cardenal Herrera, de Valência, com o grau académico de Doutor Honoris Causa. O elogio académico do doutorando foi proferido por D. Miguel Ors Montenegro, que destacou a acção relevante de D. Ximenes Belo na defesa dos direitos humanos, da liberdade, da justiça e da paz entre o povo de Timor-Leste. Seguiu-se o acto da imposição das insígnias doutorais pelo Reitor da Universidade.
D. Ximenes proferiu então um notável discurso de que apresenta-mos alguns extractos.
Assistiram ao acto, além do Grão Chanceler, numerosos professores daquela universidade e de outras de Espanha, a embaixadora de Timor-Leste em Portugal e uma numerosa delegação de Portugal, da qual faziam parte representantes da Universidade de Aveiro, das câmaras municipais de Albergaria-a-Velha, Coimbra, Oliveira do Bairro, Penacova e Santa Comba Dão, das juntas de freguesia de Penacova e Lorvão, do Colégio de Calvão e muitas outras pessoas amigas e admiradoras de D. Ximenes Belo.
Excertos do discurso de D. Ximenes Belo
“A sociedade timorense foi sempre uma sociedade marcada por conflitos, ódios, violências e guerras. (…) O pequeno povo de Timor-Leste é um povo de guerreiros. Os recentes acontecimentos, desde o dia 28 e 29 de Abril passado, revelam que ainda não há verdadeira paz em Timor. Falta maturidade para viver em democracia, construir a justiça e o diálogo e olhar para o bem comum”.
“A Partir do ano 2000, foi criada em Timor-Leste uma Comissão de Verdade, Acolhimento e Reconciliação, com o objectivo de criar nos Timorenses uma mentalidade de paz; a nível da Igreja, foram constituídas as Comissões Diocesanas para a Justiça e Paz; a nível do Governo, instituiu-se a Provedoria dos Direitos Humanos e o Comissariado para a Igualdade Homem/Mulher. O próprio Presidente da República, Xanana Gusmão, envolveu-se afincadamente para trazer os irmãos timorenses divididos (pró-integração e pró-independência) para debaixo do mesmo tecto (…). Apesar de todos este esforço, Timor-Leste permanece cheio de conflitos e de incompreensões. É urgente, portanto, falar-se da educação à Paz e da Cultura da Paz em Timor.”
“Desde Fevereiro do corrente ano que se vive em Timor-Leste uma instabilidade social e militar. Os acontecimentos das últimas semanas foram de tal gravidade que foi preciso convidar forças estrangeiras para manter a paz, que deveria ser tarefa dos próprios Timorenses. Infelizmente, a sociedade timorense foi sempre marcada por conflitos, ódios, vinganças e guerras, desde o estabelecimento da soberania portuguesa em Timor. Houve movimentos de rebeliões contra Portugueses ao longo dos séculos. No séc. XX, deu-se a invasão da Indonésia, e a consequente resistência à ocupação da parte do Povo. Entrando no novo milénio e vivendo num país livre e independente, os Timorenses devem encarar o futuro com outra mentalidade, isto é, uma mentalidade imbuída de cultura de paz. Uma mentalidade baseada no respeito dos direitos humanos, na vivência e prática da democracia, no desenvolvimento e progresso do país e da cooperação com outros povos e nações. Daqui a necessidade e a urgência de educação das mentes e dos corações para a reconciliação e perdão, para a paz e justiça. Timor-Leste é um país novo, mas um dos mais pobres da Ásia, e precisa da ajuda da comunidade internacional”.
