A tuberculose continua a ser uma ameaça

Jorge Sampaio participou em debate na Universidade de Aveiro A tuberculose é flagelo mundial. Mata cinco mil pessoas por dia. Com a SIDA e a malária, constitui uma “aliança fatal”. Jorge Sampaio tem a missão de não deixar que os poderosos se esqueçam desta doença que afecta principalmente os países pobres. Mas a SIDA e a tuberculose têm altas taxas de incidência em Portugal.

É necessário chamar a atenção para a tuberculose, porque “há um aumento de casos em Portugal”. “Pensou-se que a doença estava controlada, fecharam-se os centros de detecção e tratamento, mas agora há novas estirpes de vírus e as vacinas já não são tão eficazes”, afirmou Jorge Sampaio. “Portugal é o país da Europa com maior número de casos: 28 por cem mil habitantes”, disse. A média Europeia é de 12 casos por cem mil habitantes.

“Não devemos deixar de estar vigilantes. Associou-se a tuberculose à pobreza e exclusão, mas qualquer um de nós, mais ou menos remediados, pode desenvolver a doença. Se alguém tiver uma tosse de 15 dias a três semanas, deve procurar os serviços de saúde”, avisou, em declarações aos jornalistas.

O antigo chefe de Estado esteve na Universidade de Aveiro, na tarde de 28 de Maio, a convite da Associação Académica, para falar de “Sida e Tuberculose”, no âmbito do 10º aniversário da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Na sessão participou também Henrique Barros, Coordenador Nacional para a Infecção VIH/Sida.

Missão: “Puxar o assunto”

Jorge Sampaio assumiu o cargo de comissário do Secretário-geral da ONU para a Erradicação da Tuberculose e tem como principal missão “mobilizar a comunidade internacional para manter na agenda política este flagelo mundial”. Por ano, morrem mais de 1,7 milhões de pessoas com tuberculose, o que corresponde a 5 mil mortes por dia. A ONU assumiu como um dos Objectivos do Milénio a diminuição do número de mortes por tuberculose, SIDA e malária.

“Como no centro ninguém se preocupa com quem está nos confins, eu procuro puxar politicamente o assunto para cima”, afirma Jorge Sampaio, referindo que nos próximos tempos tem de avivar a memória dos líderes do G8 (sete países mais ricos e a Rússia), por estes dias reunidos na Alemanha, e da União Europeia. Sob presidência portuguesa, a UE promoverá em Dezembro, em Lisboa, a conferência Europa/África.

Quanto à política activa, Sampaio afirmou, com ironia: “Não direi que sou um político na reserva, porque isso levantaria as maiores suspeitas, mas esse capítulo está fechado na minha vida”.

Doentes no Sul,

medicamentos no Norte

Henrique Barros notou a “discrepância portuguesa” de ser um país com um índice de desenvolvimento relativamente grande no contexto de uma Europa de 53 nações (25 países da UE mais as restantes) e ao mesmo tempo apresentar os piores indicadores no que diz respeito à tuberculose e à Sida. “Houve melhorias no desenvolvimento económico, mas não no conhecimento, na transformação das atitudes e dos comportamentos”, afirmou.

Reportando-se ao contexto mundial e da CPLP, Henrique Barros notou que, sendo “a tuberculose curável” e a “e a sida tratável”, o mundo vive uma grave contradição: “Os doentes estão no [hemisfério] Sul; os medicamentos estão no Norte”.

Sexualidade dura até ao fim da vida

Comentando dados recentes que referem que é na terceira idade que se verifica um aumento maior do número de casos de infecção pelo VIH (ver texto em baixo), Henrique Barros considerou haver por detrás dessa notícia uma “mitologia” e, ao mesmo tempo, um aspecto positivo. A mitologia é pensar “que a sexualidade não dura até ao fim da vida”.

Trata-se de uma “ideia cinematográfica” julgar que “só há sexualidade nos adultos jovens”, pelo que “o risco de contrair o vírus existe até ao fim da vida”, afirmou o Coordenador Nacional para a Infecção VIH/Sida.

O aspecto positivo que essa notícia revela é que a prevenção está a fazer efeito entre os mais novos e nos até agora chamados “grupos de risco”.

Sida aumenta nos mais velhos

Dados apresentados no 2º Congresso “Pandemias na Era da Globalização” (Aveiro, 17 a 19 de Maio) demonstraram que o grupo etário dos idosos é onde se verifica o maior aumento da incidência de VIH/Sida. Em 2003, os números de casos de Sida em pessoas com mais de 65 anos de idade foi superior ao número de casos de SIDA na década de 1983-1993. Tal situação verifica-se porque a infecção não é detectada de forma precoce, mas também devido a factores como o aparecimento de fármacos que promovem uma vida sexual activa em idade avançada, como referiu Meliço-Silvestre. Por outro lado, “há doenças crónicas próprias do processo de envelhecimento que mascaram os sintomas de SIDA e induzem um diagnóstico errado ou inconclusivo”, adiantou Meliço-Silvestre, defendendo que a prevenção sobre a doença e os comportamentos que a ela conduzem deve agora dirigir-se às faixas etárias mais velhas.