À Luz da Palavra – XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano B A mensagem bíblica deste domingo revela-nos a lógica de Deus, na qual os vencedores são aqueles e aquelas que vivem no sofrimento, na humilhação e na abnegação da sua própria vida, e que, por isto, trazem à humanidade concreta uma mais valia de vida, de libertação e de esperança. Contrária é a lógica humana, em que os vencedores são aqueles e aquelas que se preocupam com o poder, com o dinheiro e com o domínio, e cujo fruto é presunção e frivolidade.
A primeira leitura apresenta-nos a figura do Servo do Senhor. Este Servo foi esmagado pelo sofrimento, mas ofereceu a sua vida como vítima de expiação. Por isso terá uma descendência duradoira e, no fim dos seus dias “verá a luz e ficará saciado”. Em Jesus, esta enigmática figura do Servo do Senhor alcançou a sua plenitude.
O autor da segunda leitura fala-nos de Jesus Cristo, que, pela sua encarnação, vestiu a nossa fragilidade, partilhou a nossa condição humana e sofreu a morte. Mas Deus ressuscitou-o e fê-lo penetrar nos Céus, tornando-se, assim, o grande sumo-sacerdote, capaz de se compadecer das nossas fraquezas e de nos obter todos os auxílios e favores, de que carecemos. Tanto o Servo do Senhor como Jesus foram vencedores, na direcção da lógica de Deus.
No evangelho, Marcos narra um episódio que nos mostra a dificuldade que os próprios discípulos de Jesus têm em entender e acolher o itinerário de vida que Ele lhes propõe, segundo a lógica de Deus. Jesus veio habitar no meio de nós, pela sua encarnação, para servir e, por isso, recusou todas as tentações de ambição, de poder e de grandeza. Fez da sua vida um permanente serviço aos pobres, aos pequenos, aos doentes, aos últimos da comunidade humana e religiosa. Este é o exemplo da vida de Jesus, que Ele apresenta como modelo aos seus seguidores.
Na comunidade cristã há a tentação de nos organizarmos de acordo com os esquemas da lógica humana: jogos de poder, tentativas de domínio, sonhos de grandeza, de fazer “carreira”, de conquistar honras e privilégios, de protagonismo, de expectativa sobre lugares de destaque, promoções, etc. Contudo, esta não é a Igreja fundada em Jesus Cristo, porque toda a autoridade que não é amor e serviço, é incompatível com a dinâmica do Reino. Nós, os discípulos e discípulas de Jesus, temos a responsabilidade de instaurar e desenvolver uma nova ordem em todos os espaços, onde nos encontramos, desde o familiar ao eclesial, passando pelo laboral, político e económico. Havemos de exercer as nossas funções de autoridade como um serviço, na perspectiva do bem comum e, se alguém há a privilegiar, que sejam os mais pequenos e desprotegidos. A nossa habitual atitude face ao próximo, há-de ser a de acolhimento empático, de respeito caloroso e profundo, de aceitação incondicional e de autenticidade, vendo nele um filho e uma filha muito amada de Deus. É assim que eu sirvo Jesus e a sua Igreja?
Leituras do XXIX Domingo Comum – Ano B: Is 53,10-11; Sl 33 (32); Heb 4,14-16; Mc 10,35-45
Deolinda Serralheiro
