“Acabará por triunfar a protecção da vida desde o começo”

No rescaldo do referendo ao aborto: Movimento criado em Aveiro para defender o Não mostrou-se triste e desiludido com os resultados, mas não desiste dos valores que defende. “É um combate de gerações”, diz Belmiro Pereira, um dos rostos mais destacados do grupo cívico “Liberalização do Aborto? Não!”. “Acabará por triunfar a protecção da vida desde o começo.”

Nos últimos dois meses, o grupo cívico “Liberalização do Aborto? Não!” não se poupou a esforços para afirmar que a vida humana tem de ser protegida desde o início. Por isso, na noite do referendo, a desilusão está no rosto e na conversa da dúzia de “militantes” que passou pela sede, junto à Estação CP de Aveiro. O Sim ganha, e por uma margem que apesar de tudo não era esperada. “Desilusão, mas não muito grande”, afirma Belmiro Pereira. “Já sabíamos que era uma campanha muito difícil. Em 98 as sondagens também nos eram desfavoráveis, mas ganhámos. Agora tínhamos essa esperança, mas era impossível lutar contra três máquinas partidárias e meia e a comunicação social. Foi uma luta de paus contra pistolas”. Os paus eram os meios do Não: grupos de cidadãos voluntários, sem experiência de campanhas, com poucos meios financeiros, a trabalhar nos tempos livres.

“Há oito anos que há uma campanha pela legalização do aborto”, com um “comportamento indecoroso dos meios de comunicação social”, afirma o professor universitário. Essa foi a principal causa da derrota do movimento pró-vida. “Era difícil contrariar a mensagem do ‘grave problema de saúde pública’ que dizem existir”, acrescenta.

Belmiro Pereira entende que Portugal perdeu uma grande oportunidade de abrir novos caminhos. É que, quando noutros países como a Inglaterra já se discute a redução de prazos, porque se percebeu que a liberalização de há 30 anos “tem consequências nefastas a nível individual e colectivo”, o nosso país preferiu ser “lanterna vermelha” a ser “precursor”, ir à frente.

Amândio de Albuquerque, médico e presidente da ADAV (Associação de Defesa e Apoio à Vida), considera que este resultado vai fazer com que a sua associação lute ainda mais pela vida: “Se o aborto deixa de ser penalizado, as pessoas vão estar mais à vontade para procurar ajuda. Vamos ter mais trabalho”. Este médico antevê que, com este Sim ao aborto, podem estar abertas as portas para outras questões como a eutanásia, mas “por via parlamentar”. “É uma questão de tempo”, afirma.

Na sede do Não de Aveiro, após muito investimento pessoal e com algumas dívidas de materiais de campanha por pagar, sente-se que mais do que uma derrota do grupo cívico, o dia 11 de Fevereiro representou uma derrota da vida.

J.P.F.

Resultados do Referendo

Portugal

Inscritos: 8 832 628

Votantes: 3 851 613 (43,61%)

Abstenção: 56,39%

Sim: 2 238 053 (59,25%)

Não: 1 539 078 (40,75%)

Distrito de Aveiro

Inscritos: 599 968

Votantes: 253 788 (42,30%)

Abstenção: 57,70%

Sim: 110 719 (44,62%)

Não: 137 413 (55,38%)

Diocese de Aveiro

(Concelhos de Águeda, Albergaria, Anadia, Aveiro, Estarreja, Ílhavo, Murtosa, Oliveira do Bairro, Sever do Vouga e Vagos)

Inscritos: 261 118

Votantes: 105 448 (40,38%)

Abstenção: 59,61%

Sim: 48 550 (47,08%)

Não: 54 556 (52,91%)