Senhor, por vezes, sinto-me um fracassado,
já não acredito em ninguém, mas amo-te.
Sou apenas um pobre homem.
Há vários anos que estou nas tuas mãos;
e bem depressa chegará o dia
em que voarei para ti…
O meu bornal está vazio,
as minhas flores murcharam,
só o meu coração permanece intacto.
A minha pobreza amedronta-me,
mas a tua ternura consola-me.
Estou diante de ti como um jarro partido,
mas com este mesmo barro
podes fazer outro como te agradar…
Senhor,
que te direi quando me pedires contas?
Dir-te-ei que, humanamente,
a minha vida foi um fracasso
e que voei muito baixo.
Senhor, aceita a oferta deste entardecer…
Como a flauta,
a minha vida está cheia de buracos…
Mas toma-a nas tuas mãos divinas:
que a tua música passe através de mim
e eleve os meus irmãos, os homens;
que seja para eles ritmo e melodia
que acompanhe a sua caminhada,
a alegria simples dos seus passos cansados…
De um manuscrito espanhol. Texto retirado da colectânea organizada por Luigi Guglielmoni e Fausto Negri, “Dai mais vida aos meus anos” (Ed. Paulinas)
