Memória Recordação pessoal da “Manifestação dos Cristãos” em Aveiro, no dia 13 de Julho de 1975
Completaram-se ontem trinta e cinco anos da chamada “Manifestação dos Cristãos”, que decorreu em Aveiro como afirmação popular em defesa da liberdade cívica de todos os homens e de todas as mulheres. Como é sabido – e já pertence às páginas da história nacional – em 25 de Abril de 1974 aconteceu a “Revolução dos Cravos” que, triunfando, pusera termo ao regime político do “Estado Novo”. Contudo, a exaltação inicial, na alegria das liberdades alcançadas, foi esmorecendo entre o povo, porque no horizonte levantava-se a ameaça de nuvens negras a pressagiar um período cruel de desrespeito pelos direitos humanos. Neste contexto, os ânimos andavam preocupados, tanto mais que se tinham verificado não só os célebres acontecimentos da “maioria silenciosa”, em 28 de Setembro de 1974, que levou o general António de Spínola a demitir-se da Presidência da República, como ainda a famosa “inventona” de 11 de Março de 1975, que serviu de pretexto para as nacionalizações radicais. Propalava-se, outrossim, em certos meios, que até nem seriam necessárias eleições, porque a “democracia” estava garantida e porque se sabia antecipadamente o que o povo desejava. Isto mesmo quis confirmar o secretário-geral do Partido Comunista numa certa entrevista à conhecida jornalista italiana Oriana Fallaci. No País vivia-se intensamente o “processo revolucionário”, não lhe faltando a luta de classes.
No seu campo específico, os bispos portugueses não tinham ilusões sobre o que estava a acontecer e o que se poderia seguir. Neste contexto, mostravam-se firmes e inflexíveis na defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana, nomeadamente do direito à informação livre e objectiva e do direito de a Igreja Católica em Portugal continuar a possuir e a orientar a sua estação emissora – a Rádio Renascença – que havia sido violentamente ocupada por forças extremistas ou pró comunistas e alheias ao ideal religioso.
No meio de toda esta confusão, na tarde de 18 de Junho de 1975, numerosos manifestantes, com o apoio de grupos esquerdistas, propuseram-se a ir protestar contra o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, pela atitude “revolucionária” dos responsáveis da Igreja. Contudo, aconteceu que umas largas centenas de cristãos anteciparam-se e foram dizer ao seu bispo que estavam com ele e que o acompanhavam. Aqueles manifestantes, entretanto chegados, com actos agressivos e com algumas forças políticas a seu lado, levaram os católicos a refugiarem-se no paço patriarcal, donde, depois de identificados, acabariam por sair no meio de enxovalhos e perante a passividade das forças da ordem.
Tais factos tiveram o condão de acordar decididamente a generalidade dos portugueses para as realidades sociais da sua Pátria. Nestas circunstâncias, em Aveiro, na tarde de 5 de Julho de 1975, um grupo muito reduzido de sacerdotes encontrou-se na casa episcopal para um mero desabafo com D. Manuel de Almeida Trindade que, além de ser bispo da Diocese de Aveiro, também era o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Expuseram ao prelado a conversa tida apenas entre eles, de que haviam concluído não se poder continuar de braços cruzados, perante tantos vexames, injustiças e atropelos. Dizendo-se simples porta-vozes das suas respectivas comunidades e do sentir generalizado de muita gente, abriram o seu coração amargurado, com ânsias de defenderem a Igreja e a Pátria, tão vilipendiadas. E manifestaram a D. Manuel o que tinham em vista: – Promover rapidamente na cidade de Aveiro uma manifestação de cristãos que, pondo de parte a sua filiação partidária, se quisessem congregar para demonstrar publicamente o seu apoio ao Episcopado.
D. Manuel, antes de aquiescer a tal ideia, quis conhecer a opinião dos párocos da Diocese. Era uma medida de prudência. Então, consultados secretamente os párocos, pessoa a pessoa, no dia 7 foi-lhe garantida a anuência geral de todos eles. Sabia-se que em tais diligências não se poderia usar o telefone, que estava sob escuta, nem o correio, porque não havia a garantia da entrega de correspondência ou de comunicados episcopais.
Ouvi então de D. Manuel a referência a um diálogo informal que tivera com alguns bispos, nomeadamente com o cardeal Karol Wojtyla, homem de exímia intuição política, arcebispo de Cracóvia que, a partir de 1978, exerceu o papado com o nome de João Paulo II; a conversa dera-se no intervalo de uma sessão de um dos últimos dias do Sínodo dos Bispos, realizado em Roma desde 27 de Setembro até 26 de Outubro de 1974 sobre a «Evangelização no mundo contemporâneo.» Em tom moderado, ele foi contando o que se estava a passar em Portugal, particularmente a partir dos finais de Setembro. Durante o diálogo, Wojtyla perguntou-lhe se em Portugal já se tinha propalado a notícia ou o boato de caixões com armas; isto é, se os sectores não comunistas, ditos “reaccionários”, não só já tinham sido acusados de conspirar contra a revolução, sem qualquer respeito pelos mortos, transportando armas em caixões. O nosso bispo – segundo lhe ouvi – respondeu afirmativamente. Perante esta informação, o cardeal, que havia passado por semelhante experiência na sua pátria, disse-lhe em tom categórico: – «Vá já para as ruas e para as praças, sem qualquer demora. Os católicos e os verdadeiros democratas têm de defender a sua liberdade.»
Há momentos decisivos na vida de qualquer pessoa ou de qualquer institui-ção; este era um deles. Por isso, escreveu mais tarde D. Manuel: – «Competia-me a mim decidir. E decidi. Sim. Foi talvez o sim de maior repercussão que tomei durante os vinte e cinco anos em que estive à frente da Diocese de Aveiro.»
Deste modo, na tarde do dia 13 de Julho de 1975 (que era domingo), pela iniciativa e com a colaboração de sacerdotes e de leigos, concentraram-se na cidade muitas e muitas dezenas de milhares de pessoas, provenientes de todas as povoações da Diocese… e mesmo de outras zonas limítrofes. Chamou-se “Manifestação dos Cristãos”; mas, porque estava em jogo a defesa de direitos fundamentais, a ela aderiram homens e mulheres de diversos credos religiosos, ideologias políticas e categorias sociais. A inolvidável jornada, que percorreu algumas artérias com o maior civismo e numa atmosfera de descontracção e delírio, pretendeu simplesmente apoiar o Episcopado na sua oportuna e corajosa determinação; acabou por terminar junto da catedral, envolvendo a imagem de Cristo no vetusto cruzeiro gótico-manuelino.
Por fim, houve três breves discursos. A concluir, D. Manuel de Almeida Trindade disse corajosamente à multidão, num oportuno improviso, que correu imediatamente o País: – «Estamos todos aqui, por direito próprio de cidadãos e de cristãos que sabem que têm o seu lugar nesta sociedade nova, que é preciso construir. Não podemos demitir-nos, não só quando se trata de reivindicar direitos nossos, […] mas também quando se trata de reivindicar direitos que pertencem aos homens como tais, como é o direito à verdade e à liberdade de informação. E sinto-me plenamente à vontade, porque esta não é uma manifestação partidária. […] Existem cristãos em todas as Dioceses de Portugal. Oxalá que o exemplo de Aveiro os desperte do Minho ao Algarve… e que se apresentem em massa a apoiar os seus bispos. Que os cristãos adormecidos acordem finalmente. Acordem! Acordem!» Referindo-se a esta jornada, D. Manuel escreveria mais tarde: – «Entusiasmo e vibração – foi o que senti nas minhas palavras. Entusiasmo e vibração – foi o que tornei a sentir em todos, quando, de seguida, cantaram o hino nacional».
Desta forma, teve início em Aveiro uma série de «Manifestações de Cristãos», às quais se ficou a dever uma relevante quota-parte, de consideráveis resultados, para a estabilização social após o “25-de-Abril”; as seguintes realizar-se-iam em diversas cidades do centro e do norte do País: Viseu (20 de Julho); Bragança (27 de Julho); Coimbra (3 de Agosto); Lamego e Braga (10 de Agosto); e Leiria e Vila-Real (24 de Agosto).
«Acordem! Acordem!» – foi o brado do saudoso bispo de Aveiro que, embora proferido no verão de 1975, teima em ser continuamente actual.
