Estratégias de conflituosidade (2)

Na nossa conflituosidade colectiva actuam mais de dez forças sociopolíticas (referidas no artigo anterior), desdobrando-se cada uma em vários sub-grupos. Tanto as forças como as suas ramificações interagem permanentemente, resultando daí uma complexidade de relações quase impenetrável. Apesar disso, talvez se possam esboçar algumas hipóteses de tendências futuras, realçando-se porventura: O favorecimento do grande capital; o enfraquecimento do tecido económico e social; a desagregação do Estado; e a omnipresença da dignidade humana. Estas duas últimas tendências serão abordadas no próximo artigo.

O favorecimento do grande capital, legal ou ilegal, resulta de factores diversos, tais como: A globalização e a livre circulação de capitais; a submissão a que ele sujeita os seus fornecedores, trabalhadores, clientes, consumidores em geral e, em larga medida, toda a sociedade; a utilização que ele faz da investigação científica e tecnológica; a própria contestação política, sindical, regional, mediática e outras… Esta contestação pouco afecta o grande capital e até o favorece, porque: Ele dispõe, em geral, de capacidade para satisfazer as reivindicações; dispõe também de escapatórias diversas, incuindo a deslocalização para outros países, quando lhe convém; beneficia de juros pagos pelos particulares e pelos Estados; e, para cúmulo, até recebe apoios financeiros e fiscais para se fixar nos países que dele precisam…

O enfraquecimento do tecido económico e social, particularmente das empresas, famílias e cidadãos mais débeis e honestos, resulta das suas inúmeras divisões internas e da opressão proveniente do grande capital e do Estado; a opressão estatal corporiza-se, especialmente, na fiscalidade, na burocracia e na desconfiança sistemática. Note-se que uma parte significativa da contestação social e política também atinge negativamente o tecido económico e social mais débil e honesto: Com efeito, é nele que se situa o maior número de empresas incapazes de satisfazerem as reivindicações sindicais e as exigências políticas; é também nele que se situa o maior número de utentes de serviços públicos perturbados pela agitação sociopolítica, bem como a maioria dos pequenos contribuintes que são forçados a pagar o aumento da despesa pública; é, ainda, neste mesmo tecido que se situa a grande maioria dos consumidores que, lutando pelo seu interesse, alimentam os grandes interesses dominantes…