Água que destrói e renova

À Luz da Palavra – I Domingo da Quaresma – Ano B Iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma, que nos vai conduzir à celebração do mistério pascal de Jesus, acontecimento fundador da vida cristã, e à vivência do tempo pascal. A liturgia da Palavra deste primeiro domingo abre-nos à nossa comum vocação cristã, nascida do baptismo, no qual o ser velho do pecado é destruído e Deus nos oferece a vida nova, que permanece para sempre, numa felicidade sem fim.

A primeira leitura, toda ela baptismal, evoca o dilúvio, do qual se salvaram apenas algumas pessoas. Na simbologia deste dilúvio, que purificou a raça humana dos seus vícios e inaugurou um novo tempo de obediência a Deus, encontramos uma figura do sentido sacramental do baptismo cristão. O dilúvio termina com uma aliança estabelecida entre Deus e o povo, a qual se vai cumprir definitivamente na morte e na ressurreição de Jesus. A presença continuada desta aliança, simbolizada no arco-íris, vai lembrando a todas as pessoas que Deus nos abraça e nos abençoa, mesmo quando continuamos a trilhar caminhos de pecado e de infidelidade, porque no baptismo nos fez suas filhas e filhos muito queridos. Nesta Quaresma somos convidados a intensificar a nossa pessoal experiência deste amor materno e paterno, que está em Deus e que Ele nos comunica em Jesus.

Na segunda leitura, Pedro, fazendo um comentário ao dilúvio, recorda-nos a importância do nosso baptismo. Radicado em Cristo, que morreu pelos injustos e voltou à vida pelo Espírito, o baptismo que recebemos salva-nos, purificando-nos interiormente da nossa imundície, e compromete-nos com Deus. Somos herdeiros da aliança por várias vezes estabelecida entre Deus e os nossos antepassados na fé e, finalmente, selada com o precioso sangue de Jesus Cristo. É em Jesus que colocamos a esperança da nossa libertação e salvação?

O evangelho apresenta-nos o episódio das tentações de Jesus, que nos recordam as opções com que Ele foi confrontado enquanto percorria os nossos caminhos. Dispondo-se a cumprir inteiramente o projecto de salvação do Pai, Jesus começou a construir um mundo novo, ao qual nos chama pelo baptismo. O baptismo e a tentação aproximam-se. Jesus foi conduzido ao deserto para ser tentado, exactamente, após ter sido investido para a missão no seu baptismo, a fim de “aprender” a realizar o projecto salvador do Pai, que o iria conduzir à morte de cruz, prova máxima do seu amor por nós. Esta é também a prova pela qual o baptizado há-de passar para realizar na sua vida o projecto de Deus, que é a construção do seu “Reino” de paz e justiça, desde aqui e agora. Todos os baptizados são chamados a ser discípulos de Jesus neste caminho de amor e de dom da vida, de forma radical e incondicional. Acreditar em Jesus, convertermo-nos e recentrar a nossa vida em Deus é o convite que hoje nos é feito. Estamos dispostos a percorrer este caminho de discipulado?

Leituras do 1º Domingo da Quaresma – Ano B:

Gn 9,8-15; Sl 25 (24); 1 Pe 3,18-22; Mc 1,12-15.

Deolinda Serralheiro