Ainda as palavras

Os dias que correm são dolorosos para todos os que sentem os riscos de se perder a consciência da dignidade humana: seja na exacerbação dos conflitos ideológicos, seja em meio dos fundamentalismos religiosos, seja no estertor de uma desesperada busca de soluções para uma crise financeira de contornos e duração imponderáveis.

Nessas circunstâncias, mais do que em quaisquer outras, a ponderação das palavras é importante. E, por isso, me ocorre apropriar-me e adaptar as perguntas recolhidas dos escritos do popular líder espiritual e símbolo da New Age, Krishnamurti, sobre as três portas que devem transpor as palavras justas. O primeiro porteiro pergunta: “É verdade?”; o segundo pergunta: “É útil?”; o terceiro pergunta: “É bom?”.

A crítica, a opinião que se exprime, a sugestão que se dá, a indignação que se manifesta…, ajuda a compreender a verdade, revela uma parte da verdade? Ajuda a aumentar a compreensão dos problemas, move à solidariedade na busca das soluções, contribui para aliviar a situação difícil, contém a necessária autocrítica? Não é danosa nem destrutiva?…

Tantas palavras insensatas, que não fazem senão acrescer a fogueira da divisão, encarniçar o ódio, muitas vezes sem sequer se dirigir ao alvo correto!… E então, quando se tem o poder mediático, verdadeiro narcótico da opinião pública, o poder verrinoso da palavra torna-se brutal, porque, na maioria dos casos, a “notícia” é mais boato que verdade, mais protagonismo que utilidade, mais intenção perversa do que bondade!

Escandaliza e deixa impotente o povo simples essa enxurrada de pronunciamentos inflamados, mais expressivos de incontida sede de poder do que de caminho para servir o bem comum, mais retórica dos senhores da palavra do que manancial de ideias construtoras de futuro.

A Verdade é um caminho esforçado e exigente. Não pode haver discurso politicamente correto nem socialmente acertado que se não insira nesse rumo libertador. Mesmo para quem não tem o horizonte da Verdade plena, que é Jesus Cristo, a sentinela da consciência, lá bem no fundo, há de ter a indicação do caminho do bem e do mal. A decisão é o impulso voluntário iluminado por essa escuta e ponderação do segredo íntimo que guia a pessoa humana. Será que temos seres humanos, isto é com consciência, a liderar a procura de soluções para o país, a emitir ideias que ajudem a encontrar essa esperança urgente e necessária?

Os cristãos estão no mundo com uma missão: de viver a busca permanente da Verdade, de exprimir, por palavras e por obras, os passos dados no sentido desse horizonte. Não estão no mundo como extraterrestres, que lhe venham trazer uma mensagem exótica. São cidadãos comuns, cuja vida ganha sentido ao irradiar verdade, utilidade, bondade! Se cada um o fizer, os círculos concêntricos deste clima novo não deixarão de se fazer sentir e alargar progressivamente. E o presente será futuro!