Ainda é possível a esperança?…

A situação pior que um país pode viver é a desconfiança generalizada, fruto das águas turvas da governação e da informação. O pessimismo consequente tolhe qualquer espécie de iniciativa, retrai o que esteja em marcha, mina todas as reservas de energias capazes de inverter a situação. Nem sequer alguns magros indicadores de retoma económica poderão ter impacto significativo. E ainda quando brilham ilhas de saber e inovação, parecem estrelas tão distantes que não alteram o breu da noite.

A saúde move-se em enigmas de reestruturação de que se não vêem resultados palpáveis. Pelo contrário, não apenas as contradições, mas episódios nefastos e chocantes enchem os tempos ou as páginas de noticiários.

A educação revela as mesmas contradições: inaugurações de pompa e circunstância, em surdo fundo de protestos, com situações concretas a turvar os anunciados êxitos, dados contraditórios de retoma do sucesso escolar, pais e professores e alunos em dúvida quanto a decisões e resultados que os afectam no dia a dia.

Da justiça, os complexos problemas e dúvidas resultantes de um novo Código Penal, que não sabemos se contribui para uma melhoria da justiça se para uma facilidade do crime… Para não dizer já da polémica acerca de quem vai superintender a investigação criminal, até onde vai o segredo de justiça, da violência dos fenómenos de crime…

São áreas estruturantes da vida nacional, são vertentes do quotidiano do cidadão, que não pode, naturalmente, sentir-se seguro sem informação rigorosa, acessível e transparente, que não ousará levantar a cabeça antes de perceber que tem na governação quem o sirva e defenda até ao limite nestas matérias.

E o problema é que as terapias de possível recuperação do optimismo e da serenidade são extremamente redutoras, parecendo que a chave de todas as questões passa por um choque dito tecnológico, às vezes ridiculamente enclausurado numa distribuição de computadores – que podem servir para trabalhar ou para brincar -, de telemóveis – que podem servir para comunicar ou para atrapalhar.

É evidente que defendo uma perspectiva de construção da pessoa que envolve os valores morais e espirituais como o alicerce dessa mesma construção, capazes de resistir a ventos e marés. E estou convicto disso mesmo: sem a proposta desses valores, não há retoma que resulte, não há esperança que renasça e se revigore, não há futuro que se encare com entusiasmo. Experimentem ao menos, em vez de teimarem em nos privar do que desejamos!