Ainda há moinhos… e moleiros

Os moinhos estão a suscitar o interesse de um número cada vez maior de investigadores, o que também se reflecte na publicação de livros sobre essa temática. Na região de Aveiro, esse estudo e interesse foi fortemente impulsionado por António Capão, com o seu livro “Os moinhos na nossa região – sua vida e decadência”, editado em 1995. Textos de Cardoso Ferreira “O Vale das Maias e as azenhas de Vale de Ílhavo” em livro

A historiografia ilhavense foi enriquecida com o lançamento do livro “O Vale das Maias e as Azenhas de Vale de Ílhavo – Um milénio de tradição”, da autoria de Manuel Carlos Teixeira Leques. A obra tem por tema central os moleiros, as azenhas e as levadas de Vale de Ílhavo, da Ermida e da Carvalheira.

O autor justificou a publicação deste livro porque ainda ninguém o tinha feito. “A inventariação do património das azenhas, das levadas e dos moleiros tinha que ser feita”, porque, “com o desaparecimento dos mais velhos, desaparecia toda esta história dos moleiros e das azenhas”, afirma.

“Este livro não deve ser lido como a última palavra sobre os moleiros, as azenhas e as levadas”, do vale que se estende desde o Vale das Maias até à Vista Alegre, porque “tem de haver por aí muito mais documentação, muito mais histórias, muito mais História. Há que reunir essa informação e registá-la em livro”, realça o autor, que desafiou outros a prosseguir o trabalho de investigação e divulgação agora iniciado.

Livro sobre “Moinhos do Distrito de Aveiro”

No dia 30 de Janeiro, no Arquivo Municipal de Albergaria-a-Velha, às 21h00, será apresentado o livro “Moinhos do Distrito de Aveiro”, da autoria de Armando Carvalho Ferreira, um “molinólogo” que, em parceria com Delfim Bismarck, publicou, há alguns anos, um livro sobre os moinhos e os moleiros do concelho de Albergaria-a-Velha.

A mesma obra será apresentada no salão da Junta de Freguesia do Bunheiro (Murtosa) no dia 7 de Fevereiro, às 21 horas.

Para Armando Carvalho Ferreira, é necessário apelar à valorização dos moinhos antes que eles desapareçam. O livro inventaria os diversos tipos de moinhos de ventos, moinhos de água, azenhas, atafonas e mós manuais do distrito (existentes e desaparecidos).

Na cidade de Aveiro ainda existem alguns moinhos (ou o que resta deles), sobretudo moinhos de vento e de maré, enquanto nas freguesias rurais do concelho há vários moinhos de água e azenhas.

O moinho de vento que se apresenta melhor conservado ergue-se nas proximidades das marinhas e do pavilhão do Beira Mar (na imagem). Exteriormente, o imóvel conserva toda a sua identidade como moinho, faltando somente o aparelho das velas. Do outro moinho de vento, próximo da rotunda poente do Viaduto de Esgueira, considerado uma das mais antigas construções existentes na cidade, resta somente um pequeno troço de uma das paredes laterais.

Segundo vários historiadores, o edifício da antiga Capitania foi originalmente um moinho de maré.

Água desviada para abastecer Aveiro

As águas das nascentes do Vale das Maias foram desviadas, em meados da década de 1940, para abastecer a rede de água domiciliária da cidade de Aveiro, fazendo secar as levadas que moviam dezenas de azenhas localizadas ao longo da área que se estende desde o Vale das Maias até à Vista Alegre, com passagem por Vale de Ílhavo, Carvalheira, Ermida e Soalhal. Nessa altura, a Câmara Municipal de Aveiro indemnizou os moleiros pelo prejuízo causado pelo desvio da água. Os moleiros que motorizaram as respectivas azenhas receberam a quantia de 25.000$00, valor que duplicou para os moleiros que mudaram de actividade.

Urbino Vieira Grave, um dos moleiros ainda activos em Vale de Ílhavo, mas agora com uma moagem eléctrica, lembra-se de ver a água passar pela levada que abastecia a azenha fundada pelo seu avô. Hoje, sob o soalho da sua moagem ainda está a levada (seca), mantendo-se o velho alçapão que dava acesso a essa conduta que fazia mover as rodas que então davam “vida” às mós. Nesse tempo havia a “levada grande” e a “levada pequena”, que se cruzavam um pouco acima da azenha da família Grave. Um pouco mais a jusante dessa azenha, as duas levadas juntavam-se. A água seguia depois só por uma vala, até à ria, próximo da Vista Alegre. O avô deste moleiro motorizou a azenha, primeiro com motor a gasóleo e depois a electricidade.

Moinhos na Gafanha da Encarnação

Na Gafanha da Encarnação não existe actualmente qualquer vestígio de moinhos, e mesmo as antigas moagens eléctricas estão hoje desactivadas. No entanto, nesta freguesia houve vários moinhos de vento, incluindo um que serviu de marco fronteiriço entre as freguesias da Gafanha da Encarnação e da Gafanha da Nazaré.

Os moinhos que existiram na Gafanha da Encarnação, na primeira metade do século XX, eram sobretudo moinhos de armação, com torre e velame em madeira ou em metal. Um desses moinhos, que fazia mover dois pares de mós, erguia-se nas proximidades do Correios. Ruiu na década de 1940, devido a um forte temporal.

Um outro moinho de armação, com torre e velame em metal, erguia-se próximo do local onde hoje a Rua Padre Resende entronca na Rua Entrecampos.

O maior dos moinhos de armação que então existia na parte sul da freguesia situava-se muito próximo dos limites com a Gafanha do Carmo. Era conhecido por moinho dos “Cirinos”. Um pouco mais a norte, ficava o moinho dos “Feijocas” ou dos “Maguetas”. O moinho dos “Gualdinos” erguia-se um pouco mais ao norte do anterior, numa zona situada entre a Rua do Carmo e a Rua José Rito.

As mós manuais também eram comuns nas casas agrícolas. Algumas ainda estavam operacionais nos finais do século XX. Dessas mós, ainda existem algumas pedras, nomeadamente as que pertenceram à mó de João de Almeida Carapelho.