Perguntas e respostas de antropologia teológica – 2
Esaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro A interrogação é frequente, mas parte de um equívoco que a história dos últimos dois séculos de relação entre ciência e teologia demorou a denunciar e superar, mas que, desde a década de 60 do século XX tem vindo a ser ultrapassado.
O equívoco é amplo, mas a exiguidade do espaço de que dispomos obriga a resumi-lo.
Em suma, presume-se, na pergunta, que, se somos fruto da evolução das espécies, como vem sendo defendido desde 1859, ano de «A origem das espécies», de Darwin, tudo o que pensávamos ser a interpretação sobre a criação do Homem está errado. Mais ainda, se assim é, e se, como assegura a teoria evolucionista, o homem não tem origem de um só casal de primatas, mas de vários, precisos para assegurar a multiplicidade genética necessária às mutações eficazes necessáris para o sucesso da evolução, então, todo o texto bíblico das duas tradições fundamentais que falam sobre a criação do homem está errado.
E, de facto, se pretendermos fazer uma interpretação literalista dos textos, esquecendo a sua dimensão simbólica, por um lado, e a sua natureza religiosa e teológica, por outro, então, estamos diante de um conflito insanável, de que resultará derrota ou vitória para a ciência ou para a teologia.
Como é sabido, os tempos que decorreram entre o emergir do evolucionismo e meados do século XX não foram fáceis, mas, graças ao contributo de homens como Teilhard de Chardin, Dordolot, Messenger, etc., foi possível compreender que o texto bíblico não ficava em causa com as conquistas da ciência, se as interpretações se ativessem ao que era a intenção do texto.
Para tal, era necessário começar por compreender que a ordem da natureza se guiava por causas segundas, as da geração e da mutação. Um pai gera um filho. Mas, era isso «criar»?
«Criar», atributo exclusivo de Deus, teria de ser de uma outra ordem, só abarcável por aproximações: as aproximações a que a linguagem simbólica e poética deitam mão e tornam possível.
Criar era da ordem da causa primeira e, também, da causa final, como bem recordara, sempre, a filosofia clássica. Neste sentido, a obra de criação de Deus, da ordem do porquê e para quê últimos, não podia confundir-se com os modos de gerar, que as ciências se propõem descortinar.
Feita esta distinção, de ordem epistemológica e hermenêutica, reúnem-se condições para começar a compreender que a própria interrogação sobre a pecaminosidade e necessidade de redenção do ser humano não estava dependente das respostas de tipo científico. É que perguntar-se sobre a condição original de pecado do homem era interrogar-se não simplesmente sobre se éramos herdeiros de um limite que marcava a nossa natureza (Trento já dissera que não pecávamos por imitação, mas que tal nos era transmitido como uma inscrição na nossa natureza), mas principalmente sobre como é possível pretender-se o bem e, afinal, realizar-se o mal. Ora, a doutrina do pecado original, na qual se fala de uma condição originante (desde que o homem é homem, desde que é posto na condição histórica) e originada (cada homem que nasce traz essa marca indelével) afirma, fundamentalmente, que o pecado não tem origem em Deus, nem em cada um de nós: é transcendente a cada homem, mas inferior a Deus. Pensar as coisas de outro modo teria de significar uma de duas coisas: ou que o mal era criado por cada homem, o que é um absurdo. O «mistério da iniquidade» submerge o homem ao ponto de lhe desafiar a liberdade! Ou, então, que Deus seria o criador simultâneo do bem e do mal, o que não seria absurdo menor. A doutrina do pecado original é, neste quadro, a salvaguardar do justo equilíbrio entre os dois absurdos, salvaguardando, ainda, a universalidade da salvação trazida, de uma vez por todas, por Jesus Cristo. Assim saibamos lê-la e interpretá-la com linguagem dos novos tempos.
Luís Silva
Prinicpais conceitos e referências
Charles Darwin (1809-1882) – Biólogo britânico que propôs a teoria da evolução dos seres vivos por meio da seleção natural e sexual. Esta teoria, que hoje reúne grande consenso na comunidade científica, surgiu pela primeira vez no livro de 1859 “A origem das espécies” (nome completo: “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças mais aptas na luta pela vida”) e aplica-se a todos os seres vivos.
Criação do Homem – Doutrina teológica, neste contexto, que afirma que o ser humano (homem e mulher) foi e é criado por Deus, “à sua imagem e semelhança”. Esta doutrina apoia-se nos primeiros capítulos do Génesis, onde se afirma que Deus criou Adão (do hebraico “adamá”, que significa “terra”, “barro”) e Eva (do hebraico “hav-váh”, que significa “vivente”).
Teoria evolucionista – Explicação da biologia que admite a evolução orgânica das espécies de seres menos evoluídos para mais evoluídos. Já existia antes de Darwin, mas este propôs uma teoria com base na seleção natural dos mais fortes. O evolucionismo opõe-se ao criacionismo enquanto doutrina biológica. Apesar de terem pouco crédito, há defensores do criacionismo biológico (muitos nos EUA), por vezes lendo a Bíblia como se fosse um livro de ciências naturais.
Interpretação literalista – Tomar o texto bíblico ao pé da letra. Esta interpretação parte do princípio de que a Bíblia, sendo Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. É o tipo de leitura preferida pelas correntes fundamentalistas.
Teilhard de Chardin (1881-1955) – Padre jesuíta francês, teólogo e palentólogo. Esforçou-se por construir uma visão harmoniosa entre as ciências naturais e a teologia, sendo criticado, no seu tempo, pelos dois lados, cientistas e homens da Igreja. Principal obra: “O Fenómeno Humano”.
Epistemologia – Ramo da filosofia que estuda os princípios, hipóteses e resultados das diversas ciências, com o fim de determinar a origem lógica e o valor do conhecimento.
Hermenêutica – Ramo da filosofia que estuda o modo correto de interpretar os textos. Tem uma importância crucial nas ciências bíblicas.
Trento – 19.º concílio ecuménico. Aconteceu na cidade de Trento, norte de Itália, de 1545 a 1563. Foi convocado principalmente para responder à Reforma Protestante.
Pecado original – “Falta original, livremente cometida pelos nossos primeiros pais”, que marca “toda a história humana” (Catecismo da Igreja Católica, n.º 390).
«Mistério da iniquidade» – Expressão popularizada por João Paulo II, por vezes em latim (“mysterium iniquitatis”), para afirmar que o mal ultrapassa as explicações humanas. A expressão foi utilizada pela primeira vez na Segunda Carta aos Tessalonicenses (2 Te 2,7).
