Na antiga moradia nobre funcionou de 1933 a 1980 o Museu de Ílhavo. Não se coloca a questão da compra por parte do município.
O secular edifício onde o Museu Municipal de Ílhavo, antecessor do Museu Marítimo de Ílhavo, foi inaugurado no dia 8 de Agosto de 1937, poderá estar condenado, uma vez que a Câmara Municipal de Ílhavo vai cessar o contrato de arrendamento daquele imóvel, ainda que, como recentemente noticiou o jornal “Diário de Aveiro”, o município “mantém interesse no terreno, mas não no edifício” porque, “seria muito caro adquiri-lo e ainda mais caro recuperá-lo”.
Foi nessa antiga moradia nobre que o “Museu dos Ílhavos” começou a ser instalado em Setembro de 1933, abrindo oficialmente as portas ao público no dia 8 de Agosto de 1938, como “Museu Municipal de Ílhavo”. Mais tarde passou a “Museu Marítimo e Regional de Ílhavo” e, actualmente, a “Museu Marítimo de Ílhavo”. Só em 20 de Setembro de 1980, quando foi inaugurado o primeiro imóvel (no mesmo espaço do actual), construído de raiz para o acolher, o Museu deixou o secular edifício, onde também funcionou a Escola de Artesanato da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.
Casa de Rocha Madahil
Para além do valor patrimonial do imóvel e de ter acolhido durante décadas o Museu, o edifício da Rua Serpa Pinto teve como proprietário António Rocha Madahil, o primeiro director do Museu Municipal de Ílhavo, figura de grande prestígio intelectual a nível nacional.
António da Rocha Madahil nasceu em Ílhavo, a 10 de Dezembro de 1893, e faleceu em Lisboa, no dia 27 de Junho de 1969. Estudou no Liceu Nacional de Aveiro, no qual também leccionou, no Liceu José Falcão (Coimbra), na Faculdade de Direito de Coimbra e na Faculdade de Letras de Coimbra (Filologia Românica).
Em 1920, Rocha Madahil foi nomeado terceiro oficial da secretaria do Liceu José Falcão, tornando-se o responsável pela organização da sua biblioteca. Em 1927 foi nomeado Primeiro Conservador da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Em 1930 foi-lhe atribuída a responsabilidade na condução dos trabalhos práticos de investigação histórica na Faculdade de Letras. Em 1932 é nomeado Primeiro Conservador do Arquivo e do Museu de Arte da Universidade de Coimbra, tendo organizado toda a documentação alusiva à região de Aveiro.
Em 1933, Rocha Madahil publicou a obra Etnografia e História – Bases para a Organização do Museu Municipal de Ílhavo, obra que serviu de alicerce à constituição e organização do Museu de Ílhavo, do qual foi director entre 1934 e 1969. Ainda durante a década de 30 exerceu funções de conservador-ajudante no Museu Machado de Castro. Em 1953 foi nomeado Director da Biblioteca e Arquivo do Distrito de Braga. Arquivista de carreira, a partir dos anos cinquenta, Rocha Madahil passou a dedicar-se mais à investigação histórica. A vasta obra de Rocha Madahil abrangeu domínios como a história, a etnografia, a arqueologia, a iconografia e a heráldica.
Com José Pereira Tavares e Francisco Ferreira Neves, fundou a revista “Arquivo do Distrito de Aveiro” em 1935. Foi delegado em Portugal do pacto Roerich para a protecção de Monumentos e Museus em caso de guerra. Presidiu à direcção do Centro de Estudos para Formação Social e foi vice-presidente da Direcção da Sociedade de Defesa e Propaganda de Coimbra. Foi grande oficial, cavaleiro e comendador de várias ordens.
Como paleógrafo, Rocha Madahil procedeu à leitura de numerosos documentos, contribuindo para o avanço dos estudos históricos. Colaborou em diversas revistas e jornais, tendo escrito dezenas de trabalhos.
Rua com imóveis seculares
A Rua Serpa Pinto, onde se localiza a antiga casa do Museu, possui alguns imóveis seculares de interesse histórico e arquitectónico, como o imóvel setecentista onde está instalada a drogaria “Vizinhos”, na esquina, no qual funcionou um teatro, cuja decoração interior ainda é visível. É também nesta rua que se ergue a Igreja Matriz de Ílhavo.
Cardoso Ferreira
Espólio documental na Torre do Tombo
António Sampaio Madahil, filho de António da Rocha Madahil, doou ao Arquivo Nacional Torre do Tombo um fundo documental do pai, constituído por cartas (184) remetidas por Alfredo Pimenta (1882-1950, escritor, investigador, historiador, segundo conservador do Arquivo Nacional da Torre do Tombo em 1931, director da mesma instituição em 1949), notas sobre epigrafia, esfragística e paleografia, manuscritos diversos, impressos, gravuras, encadernações, genealogias das famílias Pico e Sanches Osório.
Entre os documentos impressos, a página oficial da Torre do Tombo, na Internet, destaca as “Conclusiones Canonicas”, de 1767. (Livro impresso em tecido de seda com fios dourados e prateados), o “Livro das pensões da orta d’Açafrade” (1587) que regista as “Pensões da fazenda do Dr. Leão Lopes de Morais pagas pelo mosteiro de Santa Ana ao cabido” [da Sé de Coimbral] 1669-1682 e notas de pagamento de vários foros, até 1714.
