Pensar a paróquia As necessidades básicas não satisfeitas configuram “o rosto” dos pobres. Em todos os lugares e âmbitos da vida. De maneira encoberta ou exposta ao olhar público. Em programas de televisão e de outros meios de comunicação. Em concursos de “alta burguesia”, a que não falta uma cena de fazer chorar pelo infeliz que merece compaixão. Com “mil” rostos, a pobreza vai sendo imposta sobretudo pelas forças imperantes no actual sistema económico neoliberal e pelas leis dos sistemas políticos que lhe servem de suporte. São rostos que espelham a pessoa do pobre, espoliada de bens, desconsiderada na sua honra e honestidade, votada à indignidade dos excluídos e marginalizados. Um ser que não conta ou a quem se oferecem eventualmente umas “migalhas”.
Sem identidade própria e atormentados por necessidades cuja satisfação é inadiável, como olham o mundo da abundância, a sociedade do bem-estar, a Igreja da comunhão que quer distinguir-se pela pobreza e fraternidade para ser fiel a Jesus Cristo? No silêncio da impotência sofrida ou no murmúrio da resignação incontida, que mensagens vão desfiando? No coro das suas vozes, no brilho do seu olhar, no eco dos seus protestos ou mesmo no cheiro a pólvora das suas lutas ou na força das suas marchas não violentas, que transmitem de forma tão eloquente? E quem está disposto a ouvi-los em fiel sintonia e inteligente compreensão?
A paróquia, qual Igreja no meio do povo, surge com uma vocação específica em relação aos pobres. Organizada e a funcionar como comunidade de participação, dispõe de redes de vizinhança para conhecer e de meios aptos para ouvir, de oportunidades para valorar, de espaços para acolher e dialogar, que, sendo bem usados, a credenciam como instituição retransmissora dos seus sentimentos e critérios.
Que dizem os pobres à sociedade opulenta, que, apesar dos seus avanços, sofre de uma crise profunda e teima em manter padrões de vida inacessíveis a todos eles? Que lugar sentem como seu nesta sociedade e como podem conter-se perante a sedução da qualidade do bem-estar apregoado?
Que dizem os pobres à Igreja que, contando embora com uma “legião” de voluntários abnegados e heróicos junto dos pobres a lutar contra a pobreza, não transmite a mensagem evangélica por meio da sua instituição e dos estilos de vida da maioria dos cristãos? E, descendo “a terreno” mais próximo a cada um de nós, pode perguntar-se: que dizem à paróquia os que sofrem os efeitos de qualquer forma de pobreza a propósito do acesso aos bens religiosos, aos lugares do culto, às obras sociais, ao horário e estilo de atendimento e de relacionamento, à linguagem litúrgica, à praxe dos rituais, à gestão dos donativos que lhe são confiados para eles?
Conheço apenas respostas pessoais dadas em ocasiões especiais. Podem ser sintomáticas, mas manifestamente insuficientes. Há resumos – quase sempre bem feitos e expressivos – de comunicações e análises apresentadas por quem estuda a sua situação, actua na sua promoção ou vive com eles por opção. Faz falta reconhecer-lhes o direito à palavra e criar espaços e condições para que se expressem livremente.
Poderia acontecer o que descreve, com alguma imaginação, um teólogo famoso actual a propósito da multidão que acompanhava Jesus e o viu entrar em casa de Zaqueu. Perde o entusiasmo? Dispersa? Senta-se silenciosa à espera que a visita acabe? Manda representantes a dialogar com os funcionários do chefe dos publicanos? Remete-se a uma atitude resignada, ainda que inconformada? É quase certo que a “raiva” incontida face ao homem de baixa estatura e senhor de injusta grande fortuna, tivesse dado azo a protestos, a gritarias, a denúncias fortes, a contestações abertas em prol de outra situação, de outra forma de vida, de outra forma de relacionamento.
A vida dos pobres “lázaros” de hoje continua cheia de cenas dolorosas e de episódios lancinantes. Insere-se, com inúmeros agravantes, num sistema injusto que gera e acentua fracturas sociais, económicas, culturais e religiosas, e se manifesta nas mais diversas situações de miséria ou de pobreza: depredação ambiental, especialmente a poluição do ar e da água; desestruturação familiar, e solidão de pessoas, “trânsito” de crianças que passam “ de mão em mão”, obesidade e má nutrição, violência doméstica, inadaptação ao uso das tecnologias modernas, fomes de pão e carinho, desemprego com pesados encargos sociais, pensões de miséria, migração ilegal ou clandestina, dependência do álcool e de drogas “pesadas”.
A paróquia pela sua vida e missão desempenha uma notável acção não apenas paliativa, mas regenerativa e curativa. Esta acção espelha-se na gestão dos recursos, na organização e no funcionamento de serviços, no ambiente acolhedor e participativo das celebrações, na linguagem e outras formas de comunicação acessível, na sobriedade e no estilo de vida dos cristãos-cidadãos, nos serviços de apoio em graves necessidades, nas parcerias com outras instituições a fim de fazer crer que outra situação é possível e promover a sua prossecução. Uma acção a apreciar e a potenciar cada vez mais.
Sem paróquia, a Igreja distancia-se da vida real do povo e a sociedade empobrece em humanidade.
Nota da redacção:
Com este artigo, o Pe Georgino Rocha completa a série de textos iniciada a 21 de Fevereiro de 2007 sobre a realidade paroquial. Ao longo de quase meio ano, semanalmente, foram abordadas as várias facetas da realidade eclesial mais próxima das pessoas. O Correio do Vouga agradece esta colaboração e aguarda novas séries de textos do autor.
