Foram, deveras, umas Exéquias singulares as de D. Donzelina dos Santos, Mãe extremosa do nosso Bispo, D. António Francisco dos Santos, não apenas por se tratar da Mãe de um Bispo, mas pelas circunstâncias providenciais dolorosas, assumidas, que entrelaçaram a vida de ambos.
As palavras simples, que vou escrever, têm, na minha intenção, o fim de partilhar com os possíveis leitores os sentimentos íntimos, que me brotaram na alma, pelo que vi, ouvi, reflecti e vivi nestas Exéquias, na Catedral de Lamego, de manhã, e, de tarde, na Igreja Paroquial de Tendais, sua Terra Natal.
Senti-me feliz, por encontrar entre aquela incontável multidão de gente, muitos diocesanos de Aveiro, leigos e religiosas (na certeza de que só dei por uma mínima parte dos presentes), numa demonstração inequívoca de amizade e gratidão ao nosso Bispo e de comunhão com Ele, naquela hora de sofrimento. A Fé e a Esperança dão alento, mas não esmagam a sensibilidade.
As Autoridades de Lamego marcaram presença, bem como as de Aveiro, ao nível da Cidade e de várias Autarquias locais. Os sacerdotes e diáconos permanentes, que participaram naqueles Actos Litúrgicos, vindos de várias dioceses e congregações religiosas, atingiram um número excepcional (segundo a “A Voz de Lamego”, uns duzentos), o que levou D. Jacinto Botelho a afirmar que nunca a Catedral de Lamego viu tantos eclesiásticos juntos. Os padres e diáconos permanentes da nossa Diocese participaram em maioria elevada, em comunhão de Fé e amizade com o seu Bispo.
Presidiu às duas concelebrações o Bispo Residencial de Lamego, acima nomeado, a pedido instante do nosso Bispo, o que se compreende perfeitamente. O Presidente falou-nos daquela Mulher excepcional, acolhedora, Esposa modelar e Mãe devotada aos filhos, predestinada por Deus para seguir com Jesus Cristo o caminho do Calvário. No final das duas Cerimónias Litúrgicas, o Senhor D. António Francisco agradeceu à sua querida Mãe quanto dela recebeu; e a cada um dos presentes terem vindo acompanhá-lo naquela hora dolorosa.
O Marido emigrou para o Brasil, como fizeram tantos portugueses nessa época, e anteriormente, com o intuito de melhorar a situação familiar. Entretanto, o Senhor chamou para Si o filhinho mais novo. E, esperando Ela e o Antoninho o regresso do Marido e do Pai para breve, receberam a notícia de que havia falecido, ainda no Brasil, aos 41 anos de idade. É fácil imaginar o sofrimento atroz que a ambos atingiu e quanto favoreceu uma intimidade mútua, sempre mais intensa.
Se não há equívoco da minha parte, foi Ela quem ajudou o seu Filho a preparar-se para a Primeira Comunhão. A sua piedade sólida, demonstrada de várias formas, salientou-se na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que promoveu à sua volta.
Olhando para o seu rosto, na fotografia da pagela – memória, facilmente ressaltam os traços duma alma nobre, de firmeza decidida, de serenidade confiante e pacificadora.
Sentindo-se chamado ao Sacerdócio, o António seguiu para os Seminários diocesanos, o que exigiu grandes sacrifícios a sua Mãe. Ordenado sacerdote em 1972, a vida da Mãe, já centrada em Cristo, concentrou-se na vida do Filho, numa verdadeira comunhão espiritual.
Em 1990, aos 63 anos de idade, foi atingida por um AVC, cujos efeitos sofreu ao longo de 19 anos, com agravamento crescente. Porém, este golpe não a desligou da intimidade com o Filho.
Quando Ele foi nomeado Bispo, Ela já não dizia palavra. Contudo, quando lhe comunicaram o acontecimento, deu mostras de reagir.
Nestas circunstâncias, o Senhor D. António Francisco visitava-a frequentemente e, nos últimos tempos, diariamente. E, segundo o testemunho das pessoas, que a acompanhavam, com todo o desvelo, quando lhe faltava a presença dele, dava mostras de inquietação.
Termino, pondo em realce o que senti neste dia único par mim. Fomos a Lamego e a Tendais acompanhar o nosso Bispo na sua dor e sufragar a alma de sua Mãe. Porém, aqueles Ritos Litúrgicos não foram, primordialmente, de sufrágio. Foram, antes, de acção de graças ao Senhor pelos benefícios, que a nossa Diocese recebeu de Deus, mediante os merecimentos desta Alma de eleição, sempre unida a seu Filho, que ao ser nomeado nosso Pastor, tomou a Diocese de Aveiro, como sua Esposa.
A sua Mãe, junto de Deus, no Qual conhece as nossas necessidades, não pode esquecer-nos. Temos mais uma intercessora no Céu. Recorramos à sua intercessão.
P.e Manuel Cirne
