As Carmelitas Descalças – Quem são?

Talvez o leitor já se tenha feito esta pergunta e já tenha encontrado uma resposta. Com frequência ouvimos chamar as Carmelitas de inúteis e até mesmo há quem as julgue um desperdício. E seria mesmo um desperdício, se Deus não existisse, se Ele não fosse o princípio, o centro e o fim da vida de cada ser humano; e não fosse verdade que Ele é o Senhor da história e, por isso, que a oração é a forma mais elevada da actividade humana, a expressão mais profunda do amor.

As carmelitas são mulheres enamoradas do Deus Vivo. Mulheres que têm como compromisso central da vida a oração e como projecto de vida a comunhão com Deus. Este projecto de vida surge no horizonte do ideal da vida consagrada, que é viver com radicalidade o seguimento de Jesus Cristo; “meditando dia e noite na lei do Senhor”, isto é, na Sua Palavra, e “velando em oração”.

A oração da carmelita consiste num “falar com Deus coração a coração”, numa relação de amizade, estando muitas vezes a sós tratando com Quem sabe que a ama. A oração cristã foi sempre definida como uma relação com Deus, mas nem sempre esteve claro o tipo de relação. Teresa de Jesus define esta relação como “trato de amizade” e diz às suas irmãs Carmelitas que, quando orem, falem com Deus como se fala com um “Amigo”.

A vocação da carmelita é uma vocação a “ser”, não a “fazer”; a “ser orante”. E ser orante implica ter um coração grande para conjugar o verbo amar na dimensão vertical e horizontal, um coração onde caiba Deus juntamente com todos os Seus filhos, irmãos da carmelita. Um coração que faça silêncio e esteja à escuta de tudo e tudo produza nele uma atitude de solidariedade e misericórdia. Ser orante é o caminho a percorrer ao longo de toda a vida. Um caminho que é animado pelo “dom” do chamamento e do enamoramento, que impele continuamente à procura do rosto do Deus Vivo.

Do projecto de vida de comunhão com Deus que caracteriza a carmelita fazem parte elementos como: o silêncio, a solidão, a clausura e a fraternidade. As actividades espectaculares não existem. E tudo está orientado em ordem à oração. O dia reparte-se entre os tempos de oração, de trabalho, de estudo e de vida fraterna. O trabalho é apenas para ganhar o pão de cada dia. Porque o que dá sentido e profundidade à vida da carmelita é a procura constante do Amigo – Jesus, que a vai transformando e lhe vai contagiando a Sua única preocupação: a glória do Pai e o amor aos irmãos.

A dimensão apostólica desta vida de comunhão com Deus encontra a sua expressão mais plena na afirmação da existência do Deus Vivo e da Sua presença no mundo. A vida de cada carmelita e de cada Carmelo encontra o seu fundamento na experiência de Elias: “Vive o Senhor em cuja presença estou!”. Viver na presença de Deus e confirmar os irmãos na fé mediante a oração e a abnegação evangélica constitui o autêntico apostolado da carmelita. A vocação da carmelita é uma vocação eclesial vivida na fidelidade ao carisma contemplativo.

A carmelita não vive uma espiritualidade ilusória, utópica, alienante ou desencarnada. A partir do momento em que Deus amou tanto o mundo que lhe enviou o Seu Filho unigénito, o mundo ficou repleto da Presença de Deus! À carmelita compete-lhe contemplar e ser sinal desta Presença, contagiando “desejos” do Deus Vivo.

Isto não significa que a carmelita não tenha intenções pelas quais reza e se sacrifica. No coração de cada Carmelo e de cada carmelita está uma intenção impressa: a Igreja. E dentro da Igreja, as almas, e dentro das almas, os sacerdotes. De Teresa de Jesus cada carmelita herda o de-sejo de ajudar o Senhor na defesa da Sua Igreja.

Santa Teresinha do Menino Jesus apresenta a vocação e a missão da carmelita como sendo o amor. “ Ser no coração da Igreja – e no coração de cada coração – o Amor”. E onde poderá a carmelita aprender a amar deste modo? A cada uma, a Madre Teresa, exortará: “Toma a Deus por Esposo e Amigo com quem trates de contínuo, e saberás amar”.

Simone Weil falando dos que assumem como projecto de vida a comunhão com Deus afirma: “nada há de mais poderoso para manter o nosso olhar cada vez mais aplicado com intensidade sobre Deus, que a amizade com os verdadeiros amigos de Deus. Estes são raros, porque há poucos contemplativos (…). E, além disso, exige tanta purificação, tanto silêncio, tanta oração que a maioria dos homens fogem do contacto com Deus. Porém, se Deus te concede a graça de encontrares um destes amigos de Deus não desaproveites a ocasião de entrares em contacto com ele”.

Carmelo de Cristo Redentor