Gaspar Mora, padre e teólogo espanhol, professor na Faculdade de Teologia da Catalunha, esteve em Aveiro, onde deu uma conferência sobre a encíclica de Bento XVI, “A Caridade na Verdade”, integrada nos 20 anos do Instituto Superior de Ciências Religiosas
CORREIO DO VOUGA – A esperança é a melhor perspectiva para ler a encíclica de Bento XVI “A Caridade na Verdade”. A “Populorum Progressio” (“O desenvolvimento dos povos”), de Paulo VI, em 1967, também era uma encíclica com muita esperança, mas em quarenta anos pouco aconteceu.
GASPAR MORA – Isso é motivo de sofrimento. Vão saindo as encíclicas e as reacções são de simpatia pelo apelo: “Sim, é verdade; o mundo vai muito mal, é muito injusto; há muita gente a morrer à fome”. Mas a Igreja não dá apenas um toque de alerta. Propõe reflexões, uma visão da vida e um caminho para resolver os problemas. Este caminho é bastante ignorado pela sociedade e, em parte, também pela Igreja. Não pelo magistério, mas pelas comunidades cristãs. Mas só o facto de se anunciar uma verdade sobre o homem, a vida, as relações humanas, a justiça, a paz já é um apelo de esperança, do mesmo modo que há dois mil anos se anuncia o Evangelho e vivemo-lo somente pela metade. O anúncio do Evangelho é uma interpelação da esperança, uma confissão de fé. Somos muito medíocres a cumpri-lo, mas ele está aí e cremos nele.
O Papa propõe princípios morais e não soluções técnicas. Afirma princípios – por exemplo, o do bem comum ou o do destino universal dos bens – e não tanto de modos de os concretizar. Isto não poderá ser entendido como uma crítica à doutrina social da Igreja?
Há diversos níveis. O nível penúltimo é o das orientações éticas. O último é o das decisões concretas. No último, a Igreja não pode entrar, não tem soluções técni-cas. Mas nas soluções técnicas está em jogo uma determinada maneira de ver o mundo. Estão em jogo categorias morais. Se a solução técnica não as respeita, é má e destruidora. E como podemos levar à prática estas orientações de tipo ético? É difícil. A Igreja está sempre a apelar a novas soluções – sobretudo nesta encíclica. As soluções do século XX foram tremendas: os fascismos, os comunismos. Pretendiam resolver problemas mas não respeitavam estes princípios básicos. Foram muito piores. A Igreja não diz quais são as soluções concretas. E faz bem em não dizer, porque devem ser revistas dias após dia, como a democracia. A democracia, teoricamente é boa, mas na prática, tem de ser repensada todos os dias para que não se ignorem os direitos das minorias, dos que não podem votar, dos que não têm voz… A democracia é o menos mau dos regimes, mas tem de ser corrigida. Qualquer solução técnica tem de ser corrigida no dia-a-dia. Isto não cabe ao magistério da Igreja. Pede-se é aos sindicatos e empresários que tenham um pouco de sensibilidade antropológica e teológica, que proponham soluções técnicas que respeitem os valores.
Algumas pessoas têm dito que esta última encíclica de Bento XVI é de direita. Outros dizem que é de esquerda. Qual a sua perspectiva?
João Paulo II era bastante claro, condenando o comunismo e o capitalismo. Este não concretiza. Só pelo texto, não saberia para que lado se inclina. A minha tentação é dizer que se inclina mais para a direita. Suspeito. Mas o texto não clarifica. Faz crítica das realidades sociais actuais. Critica as empresas. Defende as intervenções internacionais, porque muitos países não podem sair sozinhos da pobreza. Mas diz que é preciso respeitar o país, a ecologia, os habitantes, as culturas. Isto é de direita ou de esquerda? Não sei dizer.
Dos temas que Bento XVI foca, qual é o mais problemático? Qual o que se deve resolver com maior urgência?
Paulo VI e João Paulo II caminhavam pelo problema da fome, que leva à morte milhões de pessoas. Nesta encíclica, este é um entre muitos outros problemas. Isso surpreendeu-me. Claro que o problema da ecologia é grave. Ou o do turismo irracional. Ou o do trabalho e dos sindicatos. O comércio. A responsabilidade social das empresas. E fala também da globalização. Diz que, em geral, é positiva. Mas também a critica. Há aspectos graves que necessitam de uma autoridade que seja racional e controlada. O Papa não especifica. É uma questão em aberto. Mas o grande pro-blema continua a ser o da fome.
E para si, enquanto teólogo moralista, qual é o maior problema do mundo actual?
É o da fome. Claramente.
Como se resolve?
Há uma injustiça mundial, estrutural, que torna impossível que milhões de pessoas possam alimentar-se. E há, por outro lado, uma injustiça em cada um dos países subdesenvolvidos. Nestes, a justiça costuma ser de uma corrupção total. E os seus habitantes têm poucas capacidades, por cultura, por tradição, por falta de alimentação… Custa-lhes muito avançar e ter res-ponsabilidade a nível técnico. Conheço um pouco Madagáscar e reconheço que a pobreza deve-se ao sistema mundial, mas também à corrupção e à irracionalidade dos responsáveis do país. Há dificuldades técnicas e de responsabilidade na hora de organizar uma empresa. É complicadíssimo. Dou um exemplo a que assisti. Vemos crianças a beber água suja de um rio. “Isto não pode ser. Esta água tem de ser tratada. As crianças apanham tifo e morrem” – este é o pensamento de um ocidental. Para tratar a água, temos de recolhê-la, guardá-la num depósito, estudar e aplicar o tratamento químico adequado, canalizá-la até ao ponto de consumo… Uma agência europeia monta a estrutura. Ao fim de algum tempo, regressa à Europa. Acontecem as avarias, o desgaste, e ao cabo de um ano as crianças voltam a beber a mesma água perigosa. É um drama.
Escreveu um livro intitulado “O que é ser cristão”. Pergunto-lhe: o que é ser cristão?
Para mim ser cristão, é participar no ser de Jesus, na experiência de Jesus perante a vida: o que vale e o que não vale, o sentido da vida e da morte, o sentido da pobreza. Participar pessoalmente deste espírito. Uma pessoa pode dizer-se cristã e, na sua maneira de ver o mundo, ser completamente pagã: ganhar dinheiro – mas isso por si mesmo não é algo negativo –, “que os meus filhos sejam felizes”, ter o mínimo para viver. Mas ser cristão é participar de uma pessoa. Há um exemplo de ser cristão que não vem de nenhum discípulo. Vem em Marcos 12,28-34. Um escriba aproxima-se de Jesus e pergunta-lhe: “Qual é o mandamento mais importante?” Jesus responde: “Para mim, o mais importante é amar a Deus e amar os outros”. E o outro declara: “Muito bem, Mestre. Tens toda a razão”. Jesus diz-lhe: “Tu não está longe do reino de Deus”. É a única vez que ouvimos dizerem a Jesus: “Muito bem, Mestre. Tens toda a razão”. É isto ser cristão para mim.
Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
