“As pessoas vivem pouco as cidades em que habitam”

César Costa, arquitecto, até agora não estava ligado a qualquer associação ou movimento, excluindo a Ordem dos Arquitectos. Integrou os Amigos da Avenida por causa de uma “paixão muito grande” pela cidade. Ao Correio do Vouga fala sobre este grupo que reflecte e intervém publicamente na e pela cidade de Aveiro

CORREIO DO VOUGA – O que são e como surgiram os Amigos da Avenida?

CÉSAR COSTA – Somos um grupo informal de amigos que partilhavam as mesmas preocupações sobre a cidade de Aveiro e que se constituiu com o desígnio de trazer um pouco da cultura, normalmente confinada a sítios fechados, para a rua, para que os aveirenses vivessem um pouco a rua. O que une os Amigos da Avenida é uma paixão muito grande por Aveiro. Essa paixão levou-nos a discutir, pensar, elaborar o Manifesto, trabalhar num programa de animação da cidade e a lançar uma ponte para o futuro. Este passo já foi dado e agora que venham mais cinco que consigam aproveitar o que está feito e levar isto para a frente.

Os Amigos da Avenida congregam associações e entidades diversas, inclusive no que se refere a blogues e páginas de Internet…

Tentámos congregar numa plataforma comum, o blogue Amigos da Avenida, algumas associações que já faziam animação cultural e convidámo-las a participar em acções de animação de rua. Para isso, escolhemos a Praça Melo Freitas, que identificámos como sendo uma das partes emblemáticas da cidade. A partir daí desafiámos essas associações a apresentarem os espectáculos que já tivessem preparado ou que quisessem preparar. A Festa dos Amigos e Vizinhos, realizada no Rossio, foi o corolário dessa iniciativa.

Que balanço é que se podem fazer destas actividades, que se iniciaram em Março e se prolongaram até Setembro?

Não devemos ser nós a fazer esse balanço. Quem o deve fazer é a população de Aveiro. De qualquer forma, e sendo isto uma experiência piloto – nós não somos uma associação constituída formalmente – acho que o balanço é positivo. Tivemos muitas acções e reunimos muitas pessoas. Tudo o que seja participar na vida da cidade é sempre positivo.

O encerramento das actividades no dia 19 de Setembro, com a Festa dos Amigos e Vizinhos, foi motivado pela proximidade das eleições autárquicas ou já estava previsto?

Não tem nada a ver com o período eleitoral que atravessamos. Já tínhamos previsto encerrar as actividades por volta desta altura, muito antes de estarem marcadas as eleições autárquicas. Estamos a entrar no Outono. A partir de agora, o clima deixa de ser propício à realização de actividades de rua. Por isso, escolhemos o meio de Setembro para encerrar as actividades.

Este ano, Aveiro esteve em festa com o tema 250 Anos da sua elevação a cidade, com iniciativas de diversas entidades, incluindo da própria Câmara Municipal de Aveiro (CMA). Para o ano, a iniciativa é para repetir, nestes ou noutros moldes?

O que nós lançámos foi uma pista. Gostávamos que isto continuasse, como é evidente, mas isto é o resultado do trabalho de uma associação informal de amigos, e não temos nada preparado para o próximo ano. Achamos que é pena perder-se esta dinâmica de animação do espaço público do centro da cidade. Uma das coisas que se nota, não só em Aveiro mas em todo o Portugal, é que as pessoas vivem pouco as cidades em que habitam. É uma pena perder-se essa “contaminação”, que este ano esteve um pouco restrita à Praça Melo Freitas, com uma pequena expansão ao Rossio. Achamos que se deveria aproveitar e pegar nisto, se calhar de uma outra forma.

Sendo Amigos da Avenida, a Avenida Dr. Lourenço Peixinho, que vos deu o mote, ficou um pouco de lado nessa animação de rua?

Não. Eu acho que a Avenida não se restringe à Avenida. A Avenida é um dos pontos centrais de Aveiro e, por isso, tem muitos pontos de influência. Curiosamente, lembro-me de num dos seminários propostos pela CMA e pela Associação Comercial, surgir a pergunta “Aveiro termina nas Pontes ou segue para o Rossio?” Os Amigos da Avenida têm reflectido sobre a principal artéria de Aveiro, dando uma série de pistas. Neste momento estamos a preparar um trabalho, incluindo um filme, sobre o que deve ser a Avenida do século XXI.

Nessa abrangência de amigos, surgiu o Manifesto?

Exactamente. O Manifesto é uma base de trabalho, não tenta fazer mais do que plasmar uma série de ideias de animação do espaço cultural, de trazer a cultura para o espaço público. O Manifesto enuncia dez princípios que podem ser aplicados aqui, ou noutro sítio qualquer, e que traduzem um pouco essa vontade de trazer a cultura dos espaços fechados para o local público, para o dia-a-dia das pessoas, para os fins-de-semana e para a vivência que todos nós temos de rua, rua essa que, infelizmente, ainda é sub-aproveitada.

A Universidade de Aveiro (UA) também pode contribuir para essa animação, mesmo fora do campus universitário?

Exactamente. A UA também se associou à Festa dos Amigos e Vizinhos. O que nós sempre tentámos fazer foi congregar vontades. A UA e a cidade vivem um pouco de costas voltadas uma para a outra. A realidade é que temos ali uma massa enorme de jovens estudantes e de professores, pessoas muito válidas que fazem falta nestas coisas. Deviam aparecer e viver mais a cidade. Por isso, o desafio também foi feito à UA. Há vários Amigos da Avenida que são professores na UA. Aos poucos, estas coisas começam a casar-se.

Foi necessário aparecer um grupo informal para ser elo de ligação entre diversas entidades, incluindo CMA e a UA?

Todos nós olhamos sempre mais par ao nosso umbigo. Quando alguém vem de fora e tenta, de alguma forma, fazer pontes, é mais fácil. Tudo isto foi novo, o que permitiu que as coisas fossem surgindo quase que naturalmente. Umas coisas empurraram as outras, e, de um momento para o outro, algo que era apenas um laboratório de ideias transformou-se num projecto que se materializou durante este tempo, de Março até agora.

Entrevista conduzida

por Cardoso Ferreira

BLOGUE

DOS AMIGOS DA AVENIDA

http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/

MANIFESTO POR UMA POLÍTICA DE ANIMAÇÃO

E QUALIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO

http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/240523.html