Seremos capazes?…

A palavra do senhor Presidente da República foi clara e incisiva: menos lamentação e mais participação, mais compromisso. Certo é que, apesar de repetidas provocações para se assumir a construção do futuro, o que vemos é uma crescente onda de braços caídos, uma quase cultura do pedir e da espera que venha do céu o sustento de cada dia e – quantas vezes! – dos próprios vícios.

É visível que se retiraram do horizonte da educação, do clima social, da estruturação da pessoa, os valores do trabalho, da entrega abnegada, da emulação sadia; diluiu-se a consciência da rede de interdependências pessoais, a noção do bem comum como o caminho da realização pessoal feliz…

Semeia-se e enraíza fortemente no coração e no espírito de todos – dos mais jovens aos mais velhos – o culto dos caminhos fáceis, um feroz individualismo, uma falta de referências éticas universais. O desenvolvimento e progresso torna-se, assim, posse de elites com vistas imediatas do lucro, onde a pessoa humana não tem lugar senão como peça, onde o dinamismo da sua dignidade transcendente é sufocado por este peso brutal de um materialismo grosseiro e interesseiro. E o resultado é esse: a passividade das multidões!

“Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do ser humano, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua di-gnidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de «ser mais»” – afirma Bento XVI na sua última encíclica, no n.º 29. Esta teimosia de uma pseudo-modernidade que persiste em incutir a ideia de que Deus é inimigo do Homem, afinal de contas priva o mesmo Homem da mais dinâmica das suas forças interiores.

Não nos entorpece o acolhimento da fonte do amor, esse eros primeiro que nos galvaniza com a dignidade da nossa origem e com o encanto do nosso fim. “A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor. De facto «aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente»” – continua o Papa, no n.º 30, citando Paulo VI no n.º 39 da Populorum Progressio.

Seremos capazes de arriscar rasgar este céu de chumbo, para nos abrirmos à Luz da radiosa Verdade de Deus que nos transfigura?…