“As relíquias convocam, evocam e provocam”

“As relíquias não andam a fazer turismo”, disse D. António Marcelino. A vinda de Teresa é uma “profecia que fala do essencial”, acrescenta o Bispo da Diocese

Lídia Albuquerque, 76 anos, conimbricense residente em Aveiro, espera a chegada das relíquias com uma biografia de Teresa de Lisieux na mãos. “Venero Santa Teresinha desde os meus 13 anos”, diz. Teve muita influência na minha vida por meio da minha mãe. Acho que ela lhe fez um milagre, quando o meu pai estava muito doente”.

João Teixeira, 38 anos, de Aveiro, é outra das centenas de pessoas que ladeiam o tapete de flores preparado na tarde de sexta-feira, para ser estreado pelo relicário da padroeira das missões. “Ouvi falar que as relíquias iam chegar a Aveiro. Sei que por onde passam arrastam multidões. Vim ver com o meu filho. Não quis ficar indiferente”.

Maria de Fátima Tavares, 27 anos, da Gafanha da Nazaré, também veio ver. “É bom na vida acreditar em algo. Acredito que a Santa Teresinha pode abençoar-nos. Vim pedir-lhe a bênção para o final do meu curso. Falta-me fazer uma cadeira”, diz a finalista de Português, Latim e Grego da Universidade de Coimbra.

Aos poucos, a meio da tarde do dia 9 de Dezembro, o adro da Sé foi-se enchendo de pessoas. E quando as relíquias chegaram, pelas 17h15, vindas da diocese da Guarda para a última paragem em Portugal continental (de Aveiro seguiriam para os Açores, depois para a Madeira, e finalmente vão regressar ao Carmelo de Lisieux, França), a Sé rapidamente se encheu para a celebração de acolhimento. Tal como estaria repleta na Missa presidida pelo bispo de Aveiro. E o mesmo se passou na capela do Convento de S. Bernardo, para onde os restos mortais de Santa Teresa seguiram às 21h. Nova enchente na Sé, no sábado à tarde, na celebração das crianças e na procissão para o Carmo, igreja que, igualmente, transbordou de fiéis.

O que aconteceu em Aveiro, a atracção popular, tem sido uma constante em todos os sítios por onde os restos mortais da jovem, que morreu aos 24 anos, passam. Numa diocese vizinha, um sacerdote exclamou: “Foi preciso Santa Teresinha vir, para a Sé se encher!”

O que explica a atracção da jovem francesa nascida em 1873, que aos 15 anos escolheu a vida contemplativa, longe do mundo, mas que queria ser missionária desde o princípio do mundo? Cada pessoa terá a sua explicação, como o jovem que lhe leu uma carta e a seguir a encostou ao relicário, ou as dezenas de pessoas que lhe trouxeram flores, ou os milhares que tocaram no relicário.

Igreja deve repensar acção pastoral

“Como explicar as multidões nesta manifestação de piedade popular?” – perguntamos ao frei João Costa, superior do Carmo de Aveiro, quando a visita estava a chegar ao fim. “A adesão popular está como esperávamos”, diz o carmelita. “Quem fez prognósticos que apontavam para uma menor adesão enganou-se. Penso que esta-mos perante uma lição do povo”, diz, sublinhando que notou o mes-mo acolhimento em várias dioceses e reconhecendo o pessimismo de alguns padres. “Há aqui algo novo. Esta expressão religiosa, que é um discurso à santidade, pode gerar um movimento de adesão à Igreja. A Igreja está cansada de ter sempre as mesmas pessoas. Aqui há presenças novas. Há disponibilidade para acreditar. Isto tem se ser explorado”, conclui frei João Costa. Ou seja, há matéria para que os responsáveis da Igreja repensem a acção pastoral.

D. António Marcelino sintetizou de outra forma o acontecimento Teresinha: “As relíquias convocam, evocam e provocam”. Convocam, porque “estamos a ser testemunhas, com sinais bem sensíveis”. Evocam, porque, em silêncio, “os restos são elementos vivos e cheios de eloquência sobre a realidade de Deus”. Quanto à provocação, “será aquela que cada um de nós quiser, na medida em que abrir a alma e o coração àquilo que Deus quiser dizer”. Nos vários momentos em que o Bispo de Aveiro presidiu a celebrações, a mesma ideia foi sublinhada: o apelo à santidade. D. António recordou as palavras de João Paulo II, “não tenhais medo de ser santos”, e foi acrescentando: “Teresa do Menino Jesus vem dizer-nos que não há que ter medo de falar de santidade, porque é o caminho normal de um filho de Deus”; “Cristão santo é o cristão normal, porque o bom filho gosta de estar com o Pai”; “A vocação à santidade é de todos os baptizados”. “Quero ser santa” – escreveu um dia Teresa. “Mas como me comparar às altas montanhas, eu, que sou um obscuro grão de areia?”

Para quem não entendesse a peregrinação pós-morte de Teresa, D. António Marcelino deixou o alerta: “As relíquias não andam a fazer turismo. [A sua vinda] é uma profecia que fala do essencial. Tanta gente tagarela do passageiro. Precisamos de gente que fale do que é verdadeiramente essencial”.

J.P.F.