A Quaresma que agora iniciámos é, para mim, um tempo de verdade e de encontro enquanto nos faz virarmo-nos para nós mesmos e olharmos o espelho da nossa vida, do nosso interior e, olhos nos olhos, descobrirmos a verdade de nós mesmos para melhor nos podermos encontrar connosco. A Quaresma é, pois, verdade e encontro e começa sempre por ser uma questão pessoal: estou ou não disposto a fazer este jogo, a entrar nesta viagem?
E é aqui que começam as tentações, os desvios, como algo de natural que nasce comigo desde o ventre da minha mãe, como reza o salmista e que me faz olhar o mundo e desejá-lo e senti-lo e saboreá-lo com olhos de encontro e verdade ou não.
Tentações há-as para todos os gostos, idades e feitios. Se nascem connosco, connosco se desenvolvem e vestem a roupagem de cada tempo: ser como deuses ou a sede de invadir o céu terá sido a primeira; já se identificaram com o próprio mundo e as coisas criadas que era preciso abandonar, já vestiram a pele da sexualidade sempre pecaminosa, já se identificaram com o dinheiro a qualquer preço ou o gozar da vida sem limites. E hoje, embrulhadas em papel das mais variadas cores, houve quem lhes desse nomes mais modernos: a tentação do micro-ondas onde tudo se quer rápido e pronto a comer: é o tempo que não se tem, o despacha-te porque estás atrasado, a conversa que ficou para outra altura ou a situação do trabalho que não partilho… e nunca chego a tempo e sempre cansado. Também lhe chamaram a tentação do papel de cozinha que se usa e deita fora e espelha todo mundo das relações humanas em que o outro serve enquanto é útil, produz e não dá trabalho; o mundo do amor e da palavra dada, do trabalho e do serviço. E, por fim, a tentação da aspirina que se toma a qualquer ameaça de dor ou mal-estar porque sofrer não tem sentido. E aqui vem “embrulhado” todo o mundo do sofrimento e da morte, da ajuda e do carinho… hoje tão discutido porque não temos tempo, os outros já nos estorvam e o sofrimento perdeu o sentido. Afinal, com tantos nomes e é a mesma tentação: sou eu mesmo que quero, de novo, ser deus. Também Cristo foi tentado e venceu porque era livre… e eu também.
