Um Estado de direito rapidamente se aproxima das fronteiras da anarquia, quando se promove, de forma programada, a desagregação moral individual e a extinção progressiva das instituições sociais estruturantes.
Estamos perturbados com a insegurança que se vive, com a incerteza da eficácia da justiça, com o medo da burla, da corrupção, que levam a uma generalizada desconfiança…
Começamos a sentir que em qualquer esquina nos pode surgir uma armadilha, mesmo trilhando os caminhos mais honestos. Basta que alguém pense em linchar alguém na praça pública, que logo se lhe oferecerá o terreno propício de alguma comunicação social sem escrúpulos, capaz de esventrar a privacidade de quem quer que seja, a partir de realidades ou apoiada em difamações e ficções.
É lícito esperar que o Estado se torne o moderador da vida pública. Sem censuras ditatoriais, cabe-lhe coordenar e promover os esforços de todas as forças cívicas, em busca de soluções dignificantes da pessoa humana e harmonizadoras das relações sociais.
Todavia, quando a arrogância das maiorias faz ouvidos surdos aos reparos dos outros, quando persiste na imposição das ideias dos “salvadores pensantes”, em pleno desrespeito pelos que pensam de maneira diferente, entramos em clima de subtil ditadura ideológica, de subterrâneo terrorismo político, que tolhe as forças de quantos sonham projectos diferentes, dado que as mordomias deixam de mãos atadas muitas iniciativas indispensáveis à vida social, submetendo tudo ao favor estatal.
Não é esta a única época da história, também entre nós, em que tal se verifica. Desde os sonhos de submeter as crianças, a partir dos primeiros dias de vida, a uma educação “dirigida”, passando pela perspectiva de seleccionar manuais escolares (com que critérios?) e impor desenhos curriculares laicistas, até à relativização do crime, à manipulação e materialização da vida, passando pela total diluição de compromissos pessoais e sociais, aí estão todos os ingredientes para uma ditadura que deixe de ser subtil para mostrar à luz do dia os seus tentáculos.
A Igreja sabe que a sua missão é a presença neste tipo de mundo. E sabe que os seus verdadeiros fiéis, vivendo as realidades deste mundo, têm de ser fermento de valores diferentes – os do Reino. Sabe que, não sendo mais que o Mestre, é sua condição sofrer a hostilidade dos poderes instituídos, que, por muito favoráveis que pareçam, sempre “perdem a cabeça” quando são contrariados.
Todavia, essa é a sua missão: ser reserva da Humanidade. No Verbo incarnado brilha a plenitude do Homem. E é esse que a Igreja tem de anunciar, gritando na praça pública, pregando nos púlpitos das igrejas, anunciando e denunciando nos areópagos que sobrem da asfixia dominante e inventando outros, mesmo na clandestinidade! A Igreja não pode nunca negociar o essencial da sua missão!
