Atmosfera inquinada

A educação cívica é o resultado de uma rede complexa de influências portadoras de valores, que leva alguém a reconhecer-se como pessoa, conhecer e reconhecer os outros como pessoas, descobrir-se como ser-em-relação e assumir a sua dignidade e a dos demais no concerto da teia de relações que plasma o tecido social.

É evidente que tudo isto está bem distante de um simples conhecimento de regras e leis sociais, de direitos e deveres, de estruturas organizativas – administrativas, judiciais, laborais… – que dão consistência à sociedade. Esse conhecimento poderá, quando muito, engendrar um “cidadão” passivo, peça de um aglomerado de pessoas e estruturas.

A complexa rede de influências, naturalmente, tem algumas referências básicas. Se a Família é uma delas, insubstituível, o Governo do Estado é outra referência de peso. Com a redobrada responsabilidade de velar precisamente pela educação cívica, dos portugueses, neste caso.

Sabemos que há intoxicações que não se fazem anunciar. Quando nos apercebemos do envenenamento já é tarde demais. Saem dois entram três e não um; eliminam-se serviços, mas não há excedente de pessoal. E ficamos nós a acreditar que a reforma do Estado está em bom rumo!

Esta foi a constatação simples de quem sabe do assunto, sem deixar margem para dúvidas em quem o ouvia na rádio. Diz-se uma parcela de verdade, com intuitos claros de convencer o público. Mas oculta-se a realidade final, uma vez que ela seria deveras penalizadora. Mas interessam os aplausos ou a educação cívica da população?

Poderíamos aproveitar para referir também que, quando se fala em despenalização do aborto, se oculta a verdadeira face da realidade. Os casos sociais justificáveis (?) já estão autorizados legalmente, não só até às dez semanas, mas até às vinte e quatro ou sem limite de tempo. Portanto, o que verdadeiramente se quer é promover uma falsa liberdade da mulher, conferindo-lhe direitos sobre o primeiro direito de outro, que é o direito à vida, o direito a crescer, uma vez gerado.

Com este exemplo de falta de transparência, é evidente que o Governo se apresenta como uma referência deseducativa, pela clara falta de verdade. Os valores não se impõem por um currículo escolar, ou por um código de direito penal, código de estrada, ou outros. Esses poderão apenas ser “manuais” que ajudem a sistematizar a aprendizagem existencial que a teia de relações sociais deve mostrar em exercício. Por aí, iremos lá!