Avaliações (1)

Questões Sociais 1. O problema da avaliação está na ordem do dia, há alguns anos. Como habitualmente, proclama-se que Portugal está muito atrasado neste domínio e que deve seguir o exemplo dos países mais avançados, ou até imitá-los. Por este motivo, o tema da avaliação passou a estar na moda através do discurso, de experiências precipitadas ou importadas mas também através de projectos válidos, tendencialmente adequados.

A propósito de tão grave problema que tem gerado tanta inquietação, vale a pena lembrar duas realidades e sugerir três linhas de orientação, seleccionadas entre muitas outras possíveis e desejáveis.

2. Importa lembrar, antes de mais, que sempre existiram a cultura e a prática da avaliação. Existia na família, nas confissões religiosas, no trabalho profissional, no associativismo e no próprio voluntariado, bem como no desporto e, mais notoriamente, no sistema judiciário. A actividade política e vários outros domínios também estavam sujeitos a avaliação regular.

Esta nem sempre era assumida como tal, utilizava por vezes métodos inadequados e até se limitava, não raro, à mera apreciação informal. Contudo existia, de facto, naturalmente “à nossa maneira”. A sua prática encontrava-se tão difundida, e tão interiorizada a sua cultura, que, particularmente nos meios cristãos, o exame de consciência fazia parte das obrigações diárias.

3. A outra realidade a ter em conta é o conjunto de três características seculares da sociedade portuguesa: o maniqueísmo, a propensão inquisitória e desigualdades hierárquico-sociais muito acentuadas.

O maniqueísmo provoca a tendência irresistível para separar as pessoas e instituições “boas” das “más”: as “boas” são louvadas sistematicamente, até à consagração idolátrica, enquanto não caírem em “desgraça”; as “más” são condenadas e espezinhadas, mesmo com recurso à calúnia irresponsável.

A propensão inquisitória provoca julgamentos e condenações precipitados, nos diferentes meios sociais, particularmente nos “media”. Exclui a simples hipótese da auto-avaliação e de avaliação partilhada. Facilmente, a avaliação redunda em acto inquisitorial e é apreendida como tal.

As desigualdades muito acentuadas dão origem a que os estratos sociais “superiores” reajam mais fortemente à simples hipótese de avaliações por “inferiores”. Magistrados, médicos, professores, quadros superiores e dirigentes da administração pública… – que, em larga medida, foram coniventes nas opressões de outrora – parecem recear que o mesmo lhes aconteça no futuro.

(Continua)