Quem dos gitanos se lembrou?

Dia do Cigano No Dia Mundial do Ambiente (5 de Junho) cogitava eu e me inquiria: quem se lembrou dos ciganos, que a sociedade ou Igreja até já lhes atribui um Dia?!

Lembrou-se, sim, o Espírito Paráclito, o Espírito que a todos anima, distribui dons, verdadeiras forças, que a todos dá mimos para se falar muitas línguas; lembrou-se esse grande baluarte de liberdade, os “Média”, com maior evidência os ditos da Igreja… Mas quem se recordou que o dia 4 de Junho é o Dia Mundial do Cigano?

Quem se lembrou dos mais fracos, dos que ainda não têm voz, liberdade de expressão para reclamarem? Quem?

Esta minoria continua a sê-lo, mas não o será, efectivamente, porque o Espírito, que anima, que vivifica, se vai lembrando de todos, dos mais fracos, como um pai extremoso que faz festa rija quando o filho regressa a casa, ou expulsa vendilhões do templo que querem transformar a casa do Pai (que de todos deve ser) em covis. É que a herança que o Espírito Santo nos legou é de todos e para todos deve reverter equitativamente, sem privilégios, quer sejam gregos ou troianos.

Estava eu a magicar estas grandes verdades, em Dia do Ambiente, quando olhei para as serras de Águeda a arderem, de novo mastigando as tragédias que fulminaram 17 voluntários, lembrei-me de acampamentos de ciganos, onde a água é choca, os mosquitos abundam, a droga, porventura, enche de traições, mas também de muitas estruturas que se vão fazendo à margem de certos programas ditos sociais, mas em que o essencial vai faltando porque vai rareando o Evangelho do Amor.

Era bom que as comunidades, ditas sociais, humanitárias, eclesiais, evangelizadoras, de uma Nova Terra, um novo Céu, mesmo cá neste Paraíso Terreal, olhassem, não apenas (e bem) para a generosidade dos grandes voluntários humanitários que são os nossos homens e mulheres que não receiam mil e um perigos e emboscadas e vão pelos quatro cantos do mundo, a pregar, com o seu exemplo e trabalho no terreno (agora de uma maneira sui generis, ao encontro de quem sofreu décadas pela sua fé pela sua liberdade), mas se preocupassem conscientemente, também, com estas minorias carentes de tudo, até da sensibilidade para não recorrerem a armas de morte – como a droga – e não se deixarem enganar por falsos profetas da sobrevivência fácil. Quem desarma os traficantes?

É tempo, mesmo em tempo de grande crise, de todos olharem para estas minorias. Os problemas das migrações também passam por aqui. Preocupam Instituições Governamentais, são lema da Igreja Universal.

Documento da Igreja denuncia indiferença

perante comunidade cigana

Num documento do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes de uma centena de pontos e de 34 páginas, refere-se no ponto 20 que é “dolorosa a indiferença ou a oposição face a estas populações nómadas. Só gradualmente, e muito lentamente, algumas comunidades se abriram ao acolhimento; porém, o seu número é ainda demasiado reduzido para que os Ciganos possam descobrir o rosto materno e fraterno da Igreja. Assim, os sinais de rejeição persistem e perpetuam-se, suscitando, em geral, poucas reacções e protestos por parte daqueles que os testemunham”.

“No entanto – prossegue o documento, saído das Conclusões do Encontro Mundial dos Ciganos que decorreu em Budapeste e em que a Diocese de Aveiro também esteve presente, fazendo-se na altura desenvolvidas reportagens –, esta situação deveria despertar a consciência dos católicos, suscitando sentimentos de solidariedade para com esta população. A Igreja sente-se, por isso, chamada a reconhecer o seu direito a querer viver em conjunto, provocando e sustentando uma sensibilização com vista a uma maior justiça face a eles, no respeito recíproco das culturas, orientando os próprios passos segundo o exemplo de Cristo, em resposta às expectativas desta população na busca do Senhor”.

Este documento, de suma importância e há muito desejado, não deixa de evidenciar também o papel que o Estado deve ter na problemática desta minoria entre minorias, assinalando que, “mesmo que o lançamento de projectos concretos de promoção humana compita primordialmente ao Estado, poderá ser conveniente e também necessário que instituições de Igreja sejam envolvidas em iniciativas deste âmbito, tornando possível que os próprios Ciganos sejam protagonistas”. “Contudo – acrescenta o Documento Pontifício –, compete, mais propriamente, à missão fundamental da Igreja chamar a atenção das instâncias públicas para as dificuldades desta população…”