“Terras de Preto”

Direitos Humanos Comecei esta minha reflexão convosco com uma expressão que nos é querida aqui no Brasil: “Terras de Preto”. Provavelmente muitos estranharão que destaque algo que em Portugal é tão politicamente incorrecto como a palavra “preto”. Pois bem, “Terras de Preto” é o nome dado às comunidades negras rurais, remanescentes de antigos quilombos. Compreendem aqueles domínios doados, entregues ou adquiridos com ou sem formalização jurídica, por famílias de ex-escravos. Há algum tempo partilhei convosco uma visita a duas comunidades quilombolas. No trabalho que a Comis-são Justiça e Paz está a realizar com outras entidades de Direitos Huma-nos, coube-me visitar uma comunidade negra chamada Bom Sucesso. É uma área também de “Terras de Preto” (usando a expressão que é uma referência étnica similar a comunidades quilombolas).

Os descendentes destas famílias de antigos escravos permanecem nestas terras há várias gerações, o que não é caso isolado no Maranhão, pois, no Estado onde vivo, foram identificadas cerca de quatrocentas situações de territórios ocupados por negros, portadores de uma identidade étnica que remonta à escravidão.

Infelizmente, as terras quilombolas são disputadas incessantemente por grandes fazendeiros, madeireiros, empresas mineiras e grandes projetos nacionais e multinacionais. São constantes também, os conflitos entre quilombolas e inescrupulosos grileiros (pretensos donos de terras vizinhas que se apoderam indevidamente das áreas de fronteira dos quilombos) com ambição de expulsar os verdadeiros donos destes territórios.

É fascinante a cultura negra ou, como alguns antropólogos lhe chamam, afro-brasileira. Da Mãe África herdaram o ritmo, as danças, a alegria. Do contacto com indígenas, a mitologia e o fascínio pela natureza. Nas tradições misturam-se a revolta pela escravidão e a esperança do dia seguinte. Devem-se às comunidades quilombolas a manutenção e o resgate de muitos usos e costumes tradicionais do Nordeste Brasileiro.

São cheiros, sabores, músicas, manufacturas e, principalmente, a cor. A vida numa comunidade quilombola é colorida. Não só pela cor da pele destes descendentes afro, como também pelo colorido das suas roupas, das suas danças…

Lembro que já partilhei num artigo anterior os rostos das crianças negras. As suas esperanças e alegrias. Agora, lembro os rostos do seu Elói (quase um século de existência, com seu cabelo encarapinhado, completamente branquinho), da Dona Maria dos Anjos, 94 anos de memórias (algumas delas terríveis, de violência fundiária) ou do seu Agostinho, responsável pelo património da comunidade.

Todos eles, orgulhosamente herdeiros de histórias de luta e resistência, pinceladas por relatos de violência, exclusão e opressões cometidas contra os seus antepassados. Aliás, algumas histórias são tão recentes (como tudo é terrivelmente cíclico!) que todos eles as podem contar na primeira pessoa.

No Bom Sucesso, além das lutas contra as ameaças dos grandes projectos agrícolas de soja e eucalipto, o povo está também preocupado com a recuperação das tradições afro.

Fui convidado a assistir a um “tambor de crioula” – “dança inebriante ao som dos tambores, protagonizada apenas por mulheres, que fazem uma roda, em cujo centro evolui apenas uma delas.

O que mais impressiona nessa tradição recuperada é que o resgate está sendo feito no feminino, como que a dar uma lição de dignidade sexual à sociedade “brasileira branca”, ainda profundamente machista.

Do restante, vos darei ainda mais impressões em próximos artigos. Neste momento fica a minha felicidade por poder constatar in loco a esperança que se vive nestas comunidades. Como que a indicar que, assim, um outro mundo é (realmente) possível.