Questões Sociais Bento XVI, na encíclica «Caritas in Veritate», parece ter optado por não se pronunciar sobre os sistemas económicos – capitalista, colectivista ou outros. Centrou-se, pelo contrário, na base doutrinária da operacionalização da justiça e da solidariedade na economia. Para este efeito, utiliza contributos próximos das ideologias consideradas de «direita», de «esquerda» e da convergência de ambas; tais contributos são, respectivamente, a economia de mercado, a democracia económica e o planeamento: A economia de mercado é considerada posititiva, desde que regulada (nº. 36 da encíclida); a democracia económica é assumida, especialmente, na perspectiva da responsabilidade social das empresas e dos consumidores (nºs. 38 e 66); e o planeamento é defendido em ordem à promoção humana e ao desenvolvimento integral (nº. 23).
A democracia económica deveria complementar a política e a social: A democracia política tem como característica o poder de voto e de outras formas de participação; a democracia social caracteriza-se pelo acesso a prestações diversas; e a económica pelo acesso a actividades produtivas e remuneradoras. Pode afirmar-se que, no nosso país, existe um lastro muito amplo de democracia económica; ele traduz-se, além do mais, no trabalho autónomo, na criação e desenvolvimento de empresas e nos esforços para que todos os trabalhadores e empresários exerçam a contento as suas actividades produtivas, e disponham de rendimentos dignificantes. Mas, em contrapartida, essa democracia está muito longe de ser alcançada, porque ainda persistem o desemprego e subemprego, salários muito baixos, desigualdades gritantes, dificuldades várias na criação e desenvolvimento de actividades económicas…; falham bastante a regulação do mercado e o planeamento preconizados na encíclica.
As três recomendações da encíclica, relativas ao sistema económico, não constituem novidade; mas, salvo algumas excepções, continuam a não encontrar respostas satisfatórias, nem nos cidadãos em geral nem nos Estados, nem nos trabalhadores nem nos sindicatos, nem nas empresas nem nas suas associações, nem na esfera local nem na nacional… Por onde é que deverá começar o esforço a promover? – Antes de mais, por nós próprios, nas nossas famílias, localidades, associações… A partir deste esforço, estaremos mais preparados e credíveis para intervir junto das instâncias políticas, mediante propostas, insistências e até reivindicações.
