Bento XVI, vítima da pressa mediática?

A viagem de Bento XVI à Baviera natal ficou marcada por afirmações de um discurso académico que exaltaram alguns sectores de fiéis e dirigentes muçulmanos. Os efeitos da polémica só serão devidamente avaliados com o passar do tempo, mas impõem-se alguns esclarecimentos.

O discurso de Bento XVI

A comunicação aos académicos da mesma instituição a que Joseph Ratzinger pertencera é uma bela peça de filosofia e teologia a que não falta inclusive um momento de humor. Referiu o Papa que a harmonia das ciências no ambiente universitário de Ratisbona não ficou afectada nem mesmo quando um professor afirmou que a universidade tinha duas faculdades dedicadas a algo que não existe: Deus.

O fio condutor do discurso é a relação entre fé e razão. Mais concretamente: o erro (perigo!) que é a fé dispensar a razão; e a clara necessidade que a razão tem da fé.

O Papa fala de três momentos sucessivos em que teólogos e filósofos tentam des-helenizar a fé. Por helenização entende-se o encontro da fé hebraica com o pensamento filosófico grego – digo hebraica e não bíblica porque o Papa defende que a fé neotestamentária é já fruto desse encontro. Des-helenizar é, então, o processo contrário: separar a fé da razão. O Papa nomeia três momentos: a Reforma protestante (consequência do fideísmo herdeiro de Duns Escoto e que tem um paralelo muçulmano em Ibn Hazan); a teologia liberal dos sécs. XIX e XX; e os tempos actuais, de pluralismo cultural, ao afirmarem que a Igreja Primitiva não é vinculativa para as outras culturas por se tratar ela própria de uma inculturação do Novo Testamento – o que o Papa nega (este aspecto há-de continuar a fazer correr muita tinta nas faculdades de Teologia).

Quando a fé e a razão se separam (João Paulo II disse na encíclica “Fides et Ratio” que são as “duas asas do espírito humano”; há quem diga que esse documento tem um dedo de Joseph Ratzinger) nada de bom há a esperar. A ciência e a ética caem no individualismo, no relativismo e no cepticismo (o Papa não usa aqui os termos) e tornam as culturas em que predominam incapazes de dialogar com outras culturas e traduções religiosas.

Por seu turno, a fé, sem razão, fica louca. E tanto pode enveredar por pietismos e sentimentalismos como cair no desespero (o Papa não fala destas vias que a história abundantemente mostra) ou perder a ética e usar a violência para se impor. É aqui que entra o diálogo do imperador Manuel II Paleólogo (1340-1425) com o “persa culto”, como poderiam entrar muitos outros exemplos.

O discurso do Papa resume-se num duplo apelo: que a fé obedeça à verdade (“Logos” é nome de Deus) como dimensão constitutiva “da própria fé”; e que a razão ponha de lado “a auto-limitação do empiricamente verificável” como critério único da verdade. Desse modo, poderão ambas, fé e razão, “empreender um novo caminho”. É, sem dúvida, um convite ao diálogo entre culturas e religiões, mas é ainda mais uma chamada de atenção à razão ocidental (cientistas, filósofos, pensadores…).

Vítima dos quinze segundos de telejornal?

Pelo que ficou dito, parece claro que o discurso de Bento XVI merece ser lido e estudado, principalmente por quem tem como missão o ensino/aprendizagem da Teologia ou o diálogo das culturas. Foi mais o discurso de um académico que gostava de dar aulas do que o de um Pastor. Porquê, então, a polémica? Não creio que tenha razão o que Fernando Madrinha escreve no Expresso (16 de Setembro): “Ratzinger é um teólogo de ideias firmas e esclarecidas. Mas nem tudo o que pensa Ratzinger pode ser dito por Bento XVI. É também por isso que um cardeal muda de nome quando chega a Papa. Nos dias de hoje, a infeliz citação é gasolina numa fogueira. E aquilo que o mundo menos precisa é de um papa incendiário”.

Parecem-me mais correctas as explicações da ismaelita (muçul-mana) Faranaz Keshavjee, lembrando o problema comunicacional da nossa sociedade: “Lamento (…) que alguns jornalistas se percam no meio de palavras daquela profundidade, reflexão e eloquência, e que movidos por esta moda mediática de ‘Infotainment’ (informação que pretende entreter o espectador o ouvinte), procurem apenas extrair o que pode ser fonte de polémica e de espectáculo” (Público, 18 de Setembro). Na mesma linha escreveu o director do Público: “Tudo isto [o discurso papal] não cabe nuns segundos de telejornal – a frase “brusca” de Manuel II sobre Maomé cabe. Porém, se isso acontece devemos pedir ao Papa mais sound-bites [afirmações sonantes] ou exigir antes mecanismos de transmissão de informação mais rigorosos”?

Com esta polémica podem ter-se erguido muros sólidos. De certeza que tal não foi intenção do Papa. De ora em diante, mais Bento XVI se vai lembrar que é o Sumo Pontífice, isto é, “construtor de pontes”.

Filme dos acontecimentos

12 de Setembro, terça-feira

Bento XVI profere um discurso de seis páginas em Ratisbona (ou Regensburg), onde fora professor e vice-reitor. Título da comunicação: “Fé, Razão e Universidade. Memórias e reflexões”. A certa altura, Bento XVI refere o diálogo entre um imperador bizantino e um “persa culto”. O imperador “coloca ao seu interlocutor, de um modo surpreendentemente abrupto para nós, a questão central da relação entre religião e violência”, afirma o Papa. A frase mais polémica, dita pelo imperador Manuel II Paleólogo e citada pelo Papa (que repetiu “eu cito”), é esta: “Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo. Não encontrarás senão coisas demoníacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a fé que ele pregava”. Umas linhas à frente, o Papa conclui: “A frase decisiva nesta argumentação contra a conversão pela violência é: «Agir de modo irracional é contrário à natureza de Deus»”.

13 de Setembro

Os jornais dão destaque à celebração da manhã do dia 12, perante 250 mil pessoas, em que o Papa pediu que os crentes sejam capazes de “professar com convicção o rosto humano do Deus” em que acreditam, perante “as patologias e doenças mortais da religião”, mas começam a circular algumas afirmações do Papa aos académicos. Um site noticioso português titula: “Papa diz que guerra santa do islão é contra Deus”. A própria Agência Ecclesia, interpretando, diz que Bento XVI deu “uma lição sobre o Islão”.

14 de Setembro

Surgem críticas de líderes religiosos muçulmanos ao discurso de Ratisbona. A Santa Sé, por intermédio do Pe Lombardi, porta-voz, emite um comunicado que afirma: “Sem dúvida, não era intenção do santo Padre levar a cabo um estudo profundo sobre a Jihad e sobre o pensamento muçulmano nesse sentido, e muito menos ofender a sensibilidade dos crentes muçulmanos”.

15 de Setembro

Protestos nas ruas de países como o Egipto, Paquistão ou a Índia. A comunidade islâmica de Lisboa, emite um comunicado em que afirma que “não nos parece que fosse intenção expressa do papa atacar o Islão e os muçulmanos”, mas considera que o Papa foi “infeliz” na escolha do texto.

16 de Setembro

Alguns dirigentes muçulmanos exigem um “pedido de desculpas pessoal” do Papa. Grupos extremistas ameaçam o Estado do Vaticano. Várias igrejas cristãs são alvo de ataques nos territórios palestinianos e no Iraque. Em vários locais manifestantes queimam figuras representando o Papa.

Declaração da Secretaria de Estado do Vaticano que lembra que “a Igreja olha também com estima para os muçulmanos” (afirmação do Concílio, NA 3) e que Bento XVI escreveu a propósito dos 20 anos do Encontro de Assis: “As manifestações de violência não podem atribuir-se à religião enquanto tal, mas aos limites culturais com os que se vive e desenvolve no tempo…”

17 de Setembro, Domingo

Na Somália, Leonella Sgorbati, freira italiana das Missionárias da Consolação, e seu guarda-costas são assassinados, haven-do quem relacione o facto com a presente crise. Na oração do Angelus, Bento XVI mostra-se “profundamente desolado” pelas reacções desencadeadas no mundo islâmico e reafirma que o texto medieval não exprime de maneira nenhuma o seu pensamento. “O meu discurso (…) na sua totalidade era e é um convite ao diálogo franco e sincero”, afirma.

18 de Setembro

Card. Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, anuncia o lançamento de uma iniciativa diplomática para explicar as declarações de Bento XVI. Houve uma “pesada manipulações que transformou as intenções do Santo Padre(…)”

Os bispos turcos reúnem-se e concluem que a visita do Papa à Turquia, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro, deve manter-se.