Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, acolheu Tiago Cavaco, Eurico Carrapatoso, Ivan Moody e João Madureira, que falaram da influência da Bíblia na música.
A influência dos textos bíblicos na composição musical e a procura da transcendência através da veneração a artistas foram algumas das questões refletidas na quinta-feira passada, em Lisboa, na abertura do ciclo de conversas “A Bíblia, coisa curiosa”.
O cantautor Tiago Cavaco, pastor baptista, recordou alguns dos trechos bíblicos pontuados pela música, como “os Salmos”, o “Cântico dos Cânticos”, as “lamentações proféticas do Antigo Testamento”, a “subida de Jesus a Jerusalém” e as “erupções teológicas de São Paulo” intervaladas por cânticos litúrgicos.
Para Eurico Carrapatoso, o momento em que um anjo comunica a Maria que vai ser mãe de Jesus – a “Anunciação” – constitui um “momento fulminante e absolutamente marcante” da Escritura. O compositor transmontano destaca entre os seus trabalhos de inspiração bíblica a peça ‘Horto Sereníssimo’, que integra um “tríptico mariano” no qual se inclui o ‘Magnificat em Talha Dourada’, uma das suas obras mais conhecidas.
“Toda a minha música tem a ver com o facto histórico mais importante da história do mundo, que é a ressurreição de Cristo”, afirmou por seu lado o padre ortodoxo Ivan Moody, de origem inglesa. Depois de aludir aos livros do Génesis e do Apocalipse – primeiro e último da Bíblia – como inspiradores das suas composições, o presbítero do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla referiu que as suas obras são marcadas por “uma grande transparência, que não é só técnica mas também espiritual”.
Assumindo-se como um “compositor crente”, João Madureira falou sobre o “momento de festa e linguagens diferentes” da ‘Missa de Pentecostes’, que a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, lhe encomendou em 2010. “A Bíblia, como é muitas vezes revisitada musicalmente, convida-nos a ultrapassar esse enorme obstáculo que é a linguagem. Acho que há algo de pré e pós linguagem que podemos sentir como fundamental”, assinalou.
Além de servir para alimentar a fé e transmitir uma mensagem, a música tem conotações com o transcendente que nem sempre implicam a pertença a uma Igreja ou a adesão a uma religião. “Um fã de algum artista ou estilo musical tende a viver de maneira religiosa”, associando-se a eles como uma “devoção”, explicou Tiago Cavaco, que também passou por esse processo durante a adolescência relativamente ao “panque-roque”.
Os encontros “A Bíblia, coisa curiosa” (a expressão é do heterónimo Álvaro de Campos) prosseguem no dia 7 de Abril, com “Bíblia, Psiquiatria & Psicanálise”, e no dia 17, com “Bíblia & Poesia”, sempre às 18h, na Casa Fernando Pessoa.
