A interpretação dos textos bíblicos, a qualidade das homilias e a consciência de que a Palavra de Deus é mais que a Bíblia estão entre as principais preocupações apresentadas pelos Bispos, nos primeiros dias do Sínodo sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Logo no início dos trabalhos, o relator geral do Sínodo e arcebispo de Québec (Canadá), Cardeal Mark Ouellet, sugeriu a elaboração de uma encíclica sobre a interpretação da Escritura, dado que em muitas ocasiões as faculdades teológicas e biblistas divergem da visão que o Magistério do Papa e dos bispos oferecem sobre a Bíblia. Também preocupado com a interpretação dos textos bíblicos, o presidente da Conferência Episcopal do Congo, D. Laurent Monsengwo Pasinya, alertou para a necessidade de evitar aquelas que sejam “fundamentalistas e subjectivas”, procurando critérios “estáveis” de interpretação da Escritura.
Muitos dos bispos participantes referiram-se à importância da homilia como instrumento para a difusão da Bíblia. Constatou-se, no entanto, que a qualidade das mesmas na missa é, em certas ocasiões, tão preocupante que provoca o abandono de fiéis da Igreja. Para responder a esta situação, entre outras intervenções, o Arcebispo de Camberra (Austrália), D. Mark Coleridge, propôs um “Directório Geral Homilético”, a exemplo do Directório Geral de Catequese. “Deveria recolher a experiência e a sabedoria da Igreja universal, incluindo os novos movimentos e comunidades, sem asfixiar o talento das igrejas locais ou dos pregadores individuais”, explicou o prelado.
Por sua vez, D. Ricardo Blázquez Pérez, bispo de Bilbau (Espanha), propôs que a homilia seja preparada na oração, fazendo-se ao menos três perguntas: “O que dizem as leituras que serão proclamadas na celebração? O que me dizem pessoalmente? O que devo eu, como pastor que presidirei a celebração, comunicar aos participantes na Eucaristia, levando em conta as circunstâncias em que se desenvolve a vida da comunidade?”.
Os bispos também estiveram atentos para esclarecer um mal-entendido e afirmaram: “a Palavra de Deus é mais que a Bíblia”. A Palavra não é um simples texto escrito. “Significa, antes de tudo, o próprio Deus que fala. Ela é o amor de Deus feito homem em Cristo. Isto significa que a Palavra de Deus estabelece uma relação de amor, pois interpela directamente cada pessoa”, insistiu cardeal Mark Ouellet.
O bispo de Imus (Flipinas), D. Luis Antonio G. Tagle, centrou a sua reflexão no facto de que o Sínodo não reflecte apenas sobre o Deus que fala e sobre como escutar a Sua Palavra, mas também sobre “o Deus que escuta”, em particular os mais fracos e pobres. Esta intervenção teve um eco particular na Sala do Sínodo, sendo citada por vários padres.
Acompanhados dos especialistas, auditores e assistentes, os 253 padres sinodais continuarão reunidos até 26 de Outubro, procurando discernir novos caminhos pastorais para que a Palavra de Deus seja a fonte da vida e da missão da Igreja.
Priscila Cirino, com agências
Cristãos de outras confissões
rezam pelo Sínodo
O Conselho Ecuménico das Igrejas, na mensagem lida durante uma das sessões do Sínodo, garantiu que os cristãos de outras confissões estão a rezar pelo bom andamento da Assembleia Sinodal. Assinada pelo reverendo Samuel Kobia, secretário-geral do Conselho, a mensagem realçava a importância da Palavra de Deus para construir a Igreja e transformar a vida das pessoas. Recordando a oração de Jesus pelos discípulos no Evangelho de São João, “para que sejam um… para que o mundo creia”, o reverendo Kobia acrescentou que é necessário unir forças “num mundo que se desgarra pelo conflito e pela guerra, pela divisão entre ricos e pobres, atormentado pelo ódio comum e pela violência”.
Rabino-chefe
de Haifa participa do Sínodo
Primeiro não cristão a pronunciar-se numa reunião magna dos episcopados mundiais, Shear-Yas-huv Cohen falou aos padres sinodais sobre o papel das Sagradas Escrituras na história e na vida do povo judeu, recordando que “elas estão no centro, inclusive em sentido físico, dos ritos judaicos e na própria vida das pessoas. Desde pequenas, as crianças são introduzidas ao estudo das Sagradas Escrituras, que muitas vezes são memorizadas”.
Depois de ter dito que a sua presença na Assembleia Sinodal era “uma mensagem de amor, de coexistência e de paz para as nossas gerações e para aquelas futuras”, o rabino Shear-Yashuv Cohen manifestou, em entrevista a jornalistas, a sua insatisfação em relação ao processo de beatificação do Papa Pio XII. Alegou que o antigo Papa não se insurgiu contra o regime Nazi, “ainda que, de maneira secreta, tenha tentado ajudar-nos”. Na celebração dos 50 anos da morte do Papa Pio XII, no dia 9 de Outubro, Bento XVI recordou os tempos difíceis em que se desenvolveu o pontificado de seu antecessor e realçou que o mesmo “não poupou esforços” para ajudar “directamente” os judeus. O Papa Bento XVI pediu a oração dos cristãos para que “prossiga felizmente a causa da sua beatificação”.
