Botânico Jorge Paiva quer que as crianças não façam os disparates dos adultos

O botânico e investigador universitário Jorge Paiva foi o primeiro convidado do novo programa “Histórias da Ciência e da Vida”, que a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro realiza no segundo domingo de cada mês no hotel “As Américas”, concebido para crianças dos seis aos oito anos de idade.

Para Jorge Paiva, um dos mais conhecidos defensores da biodiversidade e das espécies autóctones em Portugal, estes encontros com as crianças são muito importantes, até porque podem contribuir para que, quando adultas, tenham “uma outra consciência” que os políticos actuais não têm. “Eu não os culpo muito, porque no tempo deles não havia educação ambiental”, afirmou. Por isso, tem esperança que “as gerações mais novas, quando chegarem a adultos, talvez não façam os disparates que as mais velhas têm feito”.

A par da defesa da biodiversidade, Jorge Paiva tem sido uma das vozes mais críticas das extensas monoculturas florestais, nomeadamente de eucalipto e de pinheiro, que se verificam em Portugal, denunciando também os malefícios da selecção e uniformização das espécies de plantas usadas na alimentação humana. Entre os muitos exemplos que o investigador apresentou às crianças aveirenses, está o milho, cereal de que, ainda há poucas décadas, havia inúmeras variedades usadas na alimentação humana, o que hoje não se verifica.

Sobre o Ano Internacional do Planeta Terra, cujo lançamento nacional ocorreu no passado sábado, em Lisboa, este investigador universitário foi peremptório ao dizer: “sou contra os anos comemorativos e os dias comemorativos, porque isso é uma farsa. Estas coisas não podem ser só num ano ou num dia, mas têm de ser continuadas no tempo”.

Gerações encontram-se através da Ciência

Paulo Trincão, responsável pela Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, afirma que o programa “Histórias da Ciência e da Vida” pretende proporcionar um encontro de gerações. Por isso, afirmou: “Vamos trazer investigadores universitários, todos com idades para cima dos 60 anos, para falarem com crianças com idades dos seis aos oito anos. Nós achamos que a ciência é um meio de motivação suficientemente grande para unir os diversos segmentos da sociedade. Para nós, a ciência deve estar no dia-a-dia e a aprendizagem que se faz na escola deve ser prolongada na sociedade e na família, e também nestes contextos. Para a Fábrica Centro de Ciência Viva e para a Universidade de Aveiro, é muito importante levar o conhecimento da ciência a todo o lado onde as pessoas estão”.

Nos encontros que se irão realizar, “vamos ter um leque muito vasto”, sublinhou Paulo Trincão. E isso porque, como disse, “a ciência é plural e é muito importante que as crianças percebam que a ciência não é só matemática e física, mas que há todo um conjunto de ramos que são igualmente importantes para o conhecimento”.