Caminho de purificação

O discurso de Bento XVI em Assis diagnosticou um novo paradigma da violência nos nossos dias, caracterizando-a em duas vertentes distintas: o terrorismo, que penaliza o adversário, indiferente às vítimas resultantes; a guerra de religião, que resulta em conflitos inter-religiosos ou na hostilidade do ateísmo. O “«não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava como norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.”

Muito para além do ateísmo prescrito pelo Estado, é fundamento de violência a “«decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. (…) A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude”.

O Santo Padre apela à purificação das religiões, com veemente insistência para os cristãos, no sentido de buscarem o centro interior da mesma religião como fonte inspiradora para a sua expressão social, com resultados de um contributo para a paz no mundo.

O convite a um grupo de ateus para participarem neste encontro insere-se no desejo de “nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito”.

Palavras e gestos que resultam escandalosos para alguns “fiéis”, que, presunçosos da salvação adquirida por pertencerem a determinada religião, diabolizam as demais, incapazes de reconhecer que os caminhos de Deus são misteriosos e que o Seu nome, a Sua invocação, sob qualquer que seja, nunca poderão ser fonte de divisão, mas sempre caminho de cooperação e aproximação.

A descoberta da dignidade humana, fundamentada precisamente na sua relação com Deus, a luta permanente para a reconhecer a ajudar a reconhecer pelos demais é o horizonte que deverá pautar o esforço de purificação das religiões.