Painel José Eduardo Rebelo
Professor da Universidade de Aveiro e presidente da Apelo – Associação do Apoio à Pessoa em Luto
O Dia dos Fiéis Defuntos pode constituir uma oportunidade para revisitar, com a serenidade que o luto superado propicia ou com a angústia de uma despedida recente, a galeria dos próximos. Esta manifestação colectiva anual é muito importante para o enlutado, ajudando-o a distanciar-se do momento da morte dos entes queridos e a melhor transpor o seu pesar. A exuberância social dos cemitérios, neste dia, perturba a serenidade desejada para a reflexão sobre os afectos perdidos.
Transcorridas duas décadas sobre uma experiência pessoal de perda muito significativa, é-me mais íntima a sua evocação no aniversário da ocorrência, na Primavera. No outonal dia dedicado aos mortos rememoro, longe de bulícios, aqueles de quem guardo doces e suaves memórias.
Georgino Rocha
Padre e professor de teologia pastoral da Universidade Católica Portuguesa
Vivo este dia com saudade e confiança. Saudade que me faz viajar no tempo e mergulhar no pós-morte; entro assim em relação com os que cessaram funções na terra e as iniciaram, de outro modo, na eternidade, os queridos defuntos. É uma relação que recorda as pessoas que eram e o contributo que deram para tornar a vida mais humana. E surge a gratidão que transformo em oração ao Senhor da Vida. Esta convicção alicerça-se na fé em Jesus Cristo que, tendo estado morto, ressuscitou e vive para sempre.
O Dia dos Fiéis Defuntos é uma oportunidade especial de dar visibilidade à morte e de testemunhar o “direito” dos mortos a estarem entre nós numa relação agradecida (não comercializada). É um dia grande em que aflora o melhor da nossa humanidade.
José António Carneiro
Padre, vigário paroquial da Glória
Vivo o dia dos fiéis defuntos abarcado pela certeza que fundamenta a minha vida cristã e o meu ministério sacerdotal: o imenso amor de Deus. É baseado na certeza desse Amor, que vai até ao extremo, que ouso, fazer memória orante daqueles que me precederam e que alcançaram o encontro com o Amor! É saudável, na vivência da minha fé, perceber a plenitude da comunhão da Igreja, da Comunhão dos Santos, nas suas diferentes dimensões. Infelizmente, vou vendo as incongruências que esta celebração proporciona; em muitos casos é mal entendida e, como tal, é mal celebrada. Não há nenhuma marca ou qualidade de flores e de arranjos florais que substituam, post mortem, o que nos obrigava fazer a consciência, em vida, a qualquer pessoa. Com Santo Agostinho, creio que “é antes da morte que podemos fazer o que seja útil para depois dela e não depois que ela ocorre, quando recolhemos os frutos que praticamos durante a vida”.
Conceição Quina
Coordenadora do Renovamento Carismático e voluntária no Hospital de Aveiro
Este ano, caindo o Dia dos Fiéis Defuntos numa quarta-feira, passo a manhã no Hospital Infante D. Pedro (Aveiro), onde colaboro como voluntária, na ajuda aos doentes, nas urgências. À tarde irei ao cemitério cumprir o preceito de fazer memória dos que já partiram. Recordo em especial o pai dos meus filhos, mas também outros familiares e amigos – e lembro também os que não têm quem se lembre deles. Habitualmente participo na Eucaristia.
De certo forma, vivo este dia dentro de uma certa tradição recebida dos mais velhos. Vivo-o com entrega e em memória dos que já partiram. Não o confundo com o Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro.
