“Sentimo-nos ainda mais profundamente envolvidos, juntamente com todos os homens e mulheres das comunidades que representamos, na nossa jornada humana comum”, disse Bento XVI na jornada de Assis.
Bento XVI concluiu o encontro inter-religioso que convocou para Assis (centro da Itália), no dia 27 de Outubro, afirmando que a “dimensão espiritual” é um “elemento chave para a construção da paz”. O Papa falava diante de 300 representantes religiosos e académicos, procedentes de 50 países, reunidos numa jornada de oração e reflexão pela paz e a justiça no mundo que assinalou o 25.º aniversário da primeira iniciativa do género, promovida por João Paulo II.
“O evento de hoje mostra como a dimensão espiritual é um elemento chave para a construção da paz. Através desta peregrinação única, fomos capazes de nos comprometermos num diálogo fraterno, aprofundar a nossa amizade e aproximarmo-nos em silêncio e na oração”, disse, em inglês, na Praça de São Francisco.
Líderes cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, representantes de religiões africanas e asiáticas, bem como um grupo de agnósticos, renovaram neste encontro um “solene compromisso comum pela paz”. “Vamos continuar a reunir-nos, vamos continuar a estar juntos nesta jornada, em diálogo, na construção diária da paz e no nosso compromisso por um mundo melhor, um mundo no qual cada homem e mulher, cada povo, possam viver de acordo com as suas legítimas aspirações”, declarou o Papa.
O cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, organismo da Santa Sé, afirmou que “a esperança pode prevalecer sobre o medo” e que ninguém se pode “resignar” diante das guerras. Em seguida, 12 líderes religiosos e um representante dos agnósticos, participantes nesta jornada, assumiram o empenho de “trabalhar no grande canteiro da paz”.
O compromisso comum manifesta a “convicção de que a violência e o terrorismo se opõem ao autêntico espírito religioso”, condenando “qualquer recurso à violência e à guerra em nome de Deus ou da religião”. A convivência “pacífica e solidária”, a promoção de uma “cultura do diálogo” e o respeito pelas convicções de “crentes e não crentes” foram outras metas apontadas em Assis, antes de um momento de oração comum, em silêncio.
“Após renovarmos o nosso compromisso pela paz e termos trocado uns com os outros um sinal de paz, sentimo-nos ainda mais profundamente envolvidos, juntamente com todos os homens e mulheres das comunidades que representamos, na nossa jornada humana comum”, disse Bento XVI.
O Papa explicou o gesto escolhido para a conclusão do evento, a entrega de uma lamparina aos participantes, símbolo do desejo de serem “portadores, em todo o mundo, da luz da paz”. Para além das lamparinas, foram largadas pombas brancas, algumas acabaram por ir parar ao meio da assembleia.
J.P.F. / Ecclesia
“Não somos estranhos uns para os outros”
No início do encontro, passou um vídeo em que que se repetiam as palavras de João Paulo II no encontro de Assis em 2002, depois dos atentados de 11 de Setembro: “Nunca mais a guerra, nunca mais o terrorismo”. De seguida, tiveram início as intervenções de dez líderes de religiões e uma representante dos não crentes.
O patriarca ecuménico de Constantinopla (Igreja Ortodoxa), Bartolomeu I, declarou que “todo o diálogo verdadeiro” traz em si as sementes de uma “metamorfose possível”. “É da indiferença que nasce o ódio”, referiu o patriarca, que recordou a “primavera árabe” e alertou para a situação dos cristãos no Médio Oriente.
Por seu lado, Rowan Williams, arcebispo da Cantuária, primaz da Comunhão Anglicana (Inglaterra), deixou aos presentes uma convicção que diz ser partilhada por todos os crentes: “Em última instância, não somos estranhos uns para os outros”.
O Rabino David Rosen, representante do Grão Rabinato de Israel, agradeceu a João Paulo II e a Bento XVI por estas iniciativas pela paz, “expressão sublime da vontade divina”.
Julia Kristeva, filósofa franco-búlgara, falou em nome dos não crentes presentes no encontro, convidando a uma “cumplicidade” entre o humanismo cristão e o que brotou do Iluminismo. “O encontro das nossas diversidades aqui, em Assis”, indicou, mostra que “a hipótese da destruição não é a única possível”.
Violência em nome da religião envergonha
Bento XVI pediu aos líderes religiosos de todo o mundo um empenho conjunto “na luta pela paz”, perante “novas e assustadoras fisionomias” de violência como o terrorismo. “Que (…) a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente”, alertou, após a intervenção dos outros líderes religiosos.
O Papa considera que, com o terrorismo, “é posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional”. “Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido”, lamentou.
Para Bento XVI, nestes casos “a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência”. O discurso papal criticou as situações em que a violência é “exercida por defensores de uma religião contra os outros”. “Esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição”, disse Bento XVI, que também recordou os momentos em que “se recorreu à violência em nome da fé cristã”. “Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza”, observou.
