Falava da Igreja conciliar, da igual dignidade de todos os baptizados, da hierarquia como serviço, da necessidade de acabar com coisas que se introduziram na Igreja, alheias ao seu espírito e missão. E exemplifiquei dizendo, então, que mais que conferir dignidades humanas, era preciso promover intensamente a dignidade radical e a igualdade de todos os filhos de Deus. Havia na assembleia monsenhores feitos de fresco, mesmo ali à minha frente. Eu não sabia. Uma gargalhada alargada e os rostos fechados dos novos dignitários. No fim, o bispo disse-me fraternalmente: “Sabe, eles gostam!…” No mesmo tom e sentido fui testemunha de outros casos iguais. Passados mais de quarenta anos de Concílio, eles ainda gostam e Roma entra no jogo…
Numa cultura moderna e pós-moderna não se pode mais falar de Deus, mostrar um rosto novo da Igreja, enfrentar o drama do divórcio entre a fé e a cultura, como se vivêssemos em tempos de cristandade, como se os hábitos tradicionais e rotineiros pudessem gerar cristãos vivos e activos ou dar mais zelo apostólico a quem veste honras de vermelho ou recebe condecorações pontifícias.
O convite de João XXXIII ao “agiornamento” ou à actualização evangélica, inspirados no exemplo de Cristo e das primeiras comunidades cristãs, levava a novos caminhos, sempre em aberto. A Igreja de Cristo há-se seguir cada dia o seu único Mestre e Senhor, aprendendo d´Ele a assumir, de modo claro, o seu projecto de salvação universal. Igreja que vai ao encontro de todos, que se abre a todos os que lutam e sofrem pela verdade, pela liberdade e pela justiça, que fala sempre uma linguagem inteligível de amor, de misericórdia e de esperança, que gera à sua volta alegria e paz, que ajuda as pessoas a serem felizes, dignas e protagonistas da sua história e da história humana, que sabe que “o caminho de Deus é o homem” e que “a glória de Deus é que o homem viva”. Por isso, faz sua a causa dos pobres, dos excluídos, sociais e morais, conforta-os pelo seu testemunho de serva e pobre, luta, ao seu lado, pela sua dignidade e pelos seus direitos, e, como mãe e mestra, os ajuda a assumir os seus deveres.
A Igreja necessita assim, com urgência, de dar lugar central a Jesus Cristo, que a ensina a servir, não a ser servida; que a ensina a ser comunhão, não sociedade de classes; que a ensina a lavar os pés, não a sentar-se em tronos para receber honras; que lhe ensina a sabedoria da cruz, não o caminho das glórias humanas; que a abre à convicção experimentada de que há mais alegria e honra em dar do que em receber. Foi este caminho evangélico que o Concílio reabriu, pedindo para se retirar dele o lixo e os tropeços que o tempo acumulou e tornaram mais difícil o caminhar da Igreja pelos caminhos calcorreados diariamente pelos homens e mulheres de cada tempo…
É esta a conversão interior, tornada visível, que o Vaticano II esperava e espera.
A Igreja em Concílio não partia do nada. Apenas fez que se soltassem vozes antes silenciadas; deu atenção a manifestações livres do Espírito, até ali pouco atendidas; mostrou o valor renovador da colegialidade apostólica e do “sentido da fé” do Povo de Deus; chamou a atenção para “os sinais dos tempos”, como apelos a novos rumos; mostrou que o mundo não é um inimigo a combater, mas realidade com que se deve dialogar; foi capaz de vencer e mostrar a importância de tensões internas; disse que outros discípulos de Cristo não eram concorrentes, mas irmãos…
Paulo VI tornou-se o grande impulsionador do Concílio. João Paulo I mostrou que a pedagogia do sorriso aproxima, estimula e ajuda a renovar. João Paulo II fez-se “ao largo” e levou a mensagem a todos os recantos da terra. Bento XVI mostra a coragem da decisão em momentos difíceis, do diálogo necessário com um mundo novo, da aceitação das humilhações como caminho de conversão eclesial.
Os tempos convidam a olhar insistentemente para Deus, donde vem a luz e onde reside a esperança. O caminho pede urgência. Esta pede humildade, confiança, fidelidade.
Uma Igreja “outra” exige o exemplo daqueles que Deus constituiu como primeiras testemunhas e não dispensa a comunhão, activa e confiante, dos que se assumem como discípulos de Cristo. Sempre e para todos num clima de amor. Só o amor constrói a obra de Deus. Só o amor, lúcido, coerente e gratuito, é fonte de renovação.
