Cara oculta

O dia 8 de Dezembro, que acabamos de celebrar evocando múltiplas efemérides, merece que sublinhemos algumas delas de maior importância, sobretudo para focar aspectos que sejam relevantes, afim de que não vejamos apenas o verso, mas também o reverso da medalha. Desse modo, encararemos os acontecimentos com outra visão.

Este dia, em 1854, foi para toda a Igreja um dia marcante. O papa Pio IX proclamou solenemente a Conceição Imaculada da Virgem Maria, tornando essa verdade, para os crentes, um novo desenvolvimento adquirido de compreensão da Revelação.

A alergia ao dogma, típica dos nossos tempos, desencorajar-se-á da contestação, se estudar os séculos de história que precederam este acto solene, seja no que respeita ao “sentir dos fiéis”, expresso num culto originário de reconhecimento da excelência desta criatura como Mãe de Deus, seja no que respeita à reflexão teológica e ao acolhimento da mesma verdade por mundos académicos tão sérios e capazes como os dos nossos dias.

Foi também em 8 de Dezembro de 1869 que, na ala direita do transepto da Basílica de S. Pedro, se inaugurou o Vaticano I. E que viria a ter a sua última Congregação Geral a 1 de Setembro do ano seguinte, declarando-o o mesmo papa Pio IX prorrogado sine die a 20 de Outubro desse ano, após a anexação dos Estados Pontifícios.

Os enunciados dogmáticos resultantes desse truncado trabalho conciliar deixam uma imagem pobre do Vaticano I. Seria injusto considerá-lo o sinal residual de uma idade caduca “que se agarrava desesperadamente às últimas tábuas de um naufrágio”. É facto que o mundo, neste quase século e meio transcorrido, rodou a uma velocidade louca. Olhar para trás simplesmente pode dar-nos a ideia de que esse foi um Concílio que se perdeu nas brumas do esquecimento.

Todo o trabalho preparado para dar continuidade ao inacabado Vaticano I mostra à saciedade que, embora enquadrado nas circunstâncias do seu tempo, ele estava prestes a ser um passo de gigante na renovação da Igreja. Muitos dos assuntos reflectidos e proclamados no Vaticano II tiveram nele um lastro de preparação, em muitos documentos que compõem cinco grossos volumes da colecção de Mansi.

Imaginemos que o Vaticano II tinha terminado no final da sua primeira sessão, que a morte do saudoso e bem-aventuado papa João XXIII tinha terminado os trabalhos iniciados!… Que desilusão não experimentaríamos, face aos resultados visíveis dos inícios do Concílio!…

Quando o papa Paulo VI encerrou o Vaticano II, mais uma vez em 8 de Dezembro, mas de 1965, muito caminho se tinha feito. Apesar disso, a recepção de toda a riqueza conciliar vai levar muito tempo e exige que também aqui se procurem sobejos elementos ocultos, que teceram a caminhada conciliar. Importa buscar a cara oculta dos factos, sobretudo dos relevantes, para os avaliarmos com justiça.